28 de outubro de 2014

:: Santo do dia & inclusão



No dia em que a Igrejas católicas ocidentais (romana e anglicana) celebram São Simão e São Judas Tadeu nossa Pastoral, como algumas vezes faz, recorda a existência de outras comunidades anglicanas/episcopais espalhadas pelo mundo e que carregam a Missão de incluir todas as pessoas no amor incondicional de Jesus. Ambientes históricos e inclusivos, sem contudo serem inclusivistas ou exclusivistas (aqueles cuja prática eclesiológica foca apenas numa categoria de pessoas: heteroafetivos, homoafetivos, negros, brancos, ricos, pobres, etc). 

As imagens são da histórica e centenária Igreja Anglicana de São Judas, no bairro de Randwick , Sidney, ligada à Igreja Anglicana da Austrália, fundada em 25 de maio de 1861.

O que torna uma igreja inclusiva? 

As boas vindas a todas as pessoas, independentemente de qualquer característica que tenha, raça, origem, sexo ou orientação sexual. Pessoas são únicas, de modo que todos os batizados podem se aproximar da Mesa do Senhor; todas as pessoas podem se achegar e participar da dinâmica na vida eclesial, a sós ou acompanhadas por seus esposos, esposas, companheiros e companheiras e também seus filhos. Ninguém será discriminado. A “normatividade” não separará pessoas ou casais. Pastorais poderão surgir espontaneamente como ferramentas no anúncio da Missão. Testemunhos serão dados de que de fato o ambiente é acolhedor, misericordioso e cristão. 


No exemplo que oferecemos, em homenagem ao apóstolo São Judas (também chamado São Judas Tadeu), as imagens de uma comunidade que bem poderia fazer parte da Rede Anglicana Pró Diversidade & Pela Paz, famosa por seus movimentos de inclusão, por ser um dos prédios históricos mais antigos de Sidney, pelo cemitério que mantém e pela Sociedade São Judas de Sineiros, fundada desde 4 de outubro de 1864.

Então, não há nada essencialmente novo nos movimentos de inclusão? 

Se pensarmos pelo lado do "ethos anglicano", não. Há muitas comunidades, algumas bem antigas, que naturalmente agregam e incluem sem levantar bandeiras senão a do Evangelho, que nos convidam a sermos e a tornarmos os ambientes acolhedores a todas as pessoas. Uma das razões para que isso seja uma realidade tem a ver com a decisão de não ser "contaminado(a)" pelo fundamentalismo religioso. 

Trazendo para o contexto de nosso país, em termos de Brasil, tem a ver com a decisão de não querer "ensimesmar-se" num clube de velhos amigos ou num ambiente onde todas as pessoas são clones umas das outras, o que facilita uma eventual discriminação a quem for diferente, a quem ousar chegar acompanhado com um companheiro ou companheira num exemplo diverso de família. 

O desafio, portanto, é seguir o fluxo do Evangelho e a não dar ouvidos aos falsificadores desta Mensagem eterna, pois Deus NÃO FAZ acepção de pessoa alguma. Por que faríamos nós? 

No dia de São Simão e São Judas (Tadeu), apóstolos,

R. P.
Movimento Episcopaz
Anglicanos Pró Diversidade & Pela Paz

Imagens por Facebook/ Flickr/ Site da St. Jude's Anglican Church

:: Sal fora do saleiro: a Igreja deve estar onde há fome de justiça



Há alguns meses atrás os protestos e a violência não pararam em Ferguson, cidade de Missouri, desde que, em 9 de agosto, um policial branco matou a tiros o jovem negro Michael Brown, de 18 anos, que estava desarmado. Conflitos se espalharam por várias cidades, mas lá o negócio ficou tão feio que a revolta popular fez o governador se pronunciar: 

“Diante dos atos violentos deliberados, coordenados e cada vez mais enérgicos contra pessoas e bens em Ferguson, ordeno que a Guarda Nacional de Missouri ajude a polícia a restaurar a paz e a ordem na comunidade”.

Em contrapartida, buscando a intermediação dos conflitos (que foram vários, de ambas as partes, população e policiais), um grupo de clérigos ― muitos deles episcopais ― se colocou na linha de frente nas piores noites daquele conflito. A reflexão que fizeram (e que nós também fazemos): a Igreja se restringe a templos? É certo que não; ao menos o Evangelho a comissiona a ir ao mundo e salgá-lo e a iluminá-lo com os valores de justiça, igualdade e fraternidade do reino de Deus. 

Por essas e outras nossa Missão continua se inspirando e se empoderando cada dia mais como mãos, braços e voz de Deus, como parte de sua Igreja em ação no mundo que clama por justiça e paz. 

Que o Senhor continue levantando homens e mulheres, leigos ou do clero, para sair e seguir na direção das necessidades de todos aqueles e aquelas que buscam justiça, igualdade e paz. Amém.

:: Comunidades parceiras, procuram-se


Vez por outra estamos recebendo mensagens e e-mails de queridos e amados de Deus que apenas desejam servir na inteireza de seus corações, cientes que não sofrerão pré-conceitos ou lhes será exigido "silêncio" quando estiverem em sua comunidade. 


Há gente também que se cansou de alguns grupos inclusivistas, pois, na verdade, buscam igreja que é igreja, e não núcleo de ativismo. Se a tua comunidade episcopal anglicana deseja se unir à nossa REDE ANGLICANA PRÓ-DIVERSIDADE & PELA PAZ, sobretudo aquelas comunidades que se encontram no Distrito Federal, nos estados do Mato Grosso, Santa Catarina, Amapá, Roraima, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, saiba que há gente sedenta do Evangelho e da palavra de Graça querendo ajudar (com seus dons e seu compromisso) a ser parte da Missão de que Deus não faz acepção de pessoas. Nossas mãos desejam estar unidas nas de tua comunidade! 

Escreva-nos: 

episcopaz@trindademeier.org 
anglicanosdobrasil@gmail.com

:: Como dizia Cazuza: "ideologia, eu quero uma pra viver"!




Deus não é uma ideologia. Por isso blasfemas são todas as tentativas de querer tornar Deus uma projeção de nossa maldade, de nosso preconceito, de nosso egoísmo, de nossa moral, de nossa razão... 

Afinal, quem é Deus? Melhor ainda: quem é Deus pra mim? Isto, quem é o meu Deus? 

Que você mesmo(a) responda pra si.

Quanto a nós, quem é Deus pra nós do Movimento Episcopaz?

Deus é... amor, pois antes de criar qualquer coisa Ele se ofereceu pela Sua própria criação! Deus é bondoso sobretudo quando nos corrige e nos disciplina, pois o faz a fim mudar nossos caminhos e nosso sentir! Deus é manso, é humilde de coração, é suave, é leve e ensina com paciência! Deus não quebra o quebrado, não julga aquele que já se julgou, não lembra aquilo que a dor já clamou para esquecer! Deus é santo. Ele não se mistura com o mal. Ele tolera a maldade, mas não se faz cúmplice dela! Deus é justo, mas não é justiceiro. Sua justiça maior é tornar justos os injustos! Deus é passional, é capaz de se irar, de nos espremer, de ficar ofendido pelo nosso descaso para com sua Escandalosa Graça! Deus não muda, mas se arrepende; não tem surpresas, mas volta atrás; sabe tudo, mas se surpreende! Deus não quer ser Deus! Ele não busca essa posição! Ele é!

:: Não é um negócio, mas a catraca tá liberada para quem crer!


Não se trata aqui de fazer propaganda do que acontece em “outras praias” que não as nossas brasileiras. A questão está para além das fronteiras. Em que pesem realidades diferentes da nossa, um fato nos chamou a atenção: no mesmo dia que o sínodo dos irmãos romanos resolveu retirar do relatório final aberturas da igreja a homoafetivos e divorciados, num outro canto do planeta uma diocese se manifestou oficialmente favorável não apenas a entrada, como já acontece há bastante tempo nas igrejas episcopais norte-americanas, mas ao casamento igualitário de seus paroquianos homoafetivos. Trata-se da diocese episcopal do Arizona, que se pronunciou após a suprema corte daquele estado considerar inconstitucional fazer acepção de pessoas, de modo que casamentos igualitários passam a ser perfeitamente legais.

Dom Kirk Smith, Bispo da Diocese de Arizona, aproveitou a decisão judicial em última instância pelo Tribunal da 9ª Circunscrição de Apelações e usou os canais diocesanos para anunciar que casamentos do mesmo sexo poderão ser celebrados nas igrejas episcopais no Arizona.

Bispo Smith afirmou: "Lembramo-nos hoje da primeira carta de João, quando diz: "amai-vos uns aos outros, porque o amor vem de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus." E continuou sua declaração dizendo: "É nossa prática o estudo das Sagradas Escrituras, a Tradição cristã e a contínua liderança e frutificação do Espírito Santo na vida do povo de Deus. Através desse processo chegamos a uma apreciação profunda das palavras de São Paulo aos Gálatas, "não há mais escravo nem livre, homem ou mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus."

"Hoje é um dia de contentamento", proclamou o bispo Smith. "Cada um de nós tem visto a mão firme e o profundo amor de Deus na vida dos fieis que são casais do mesmo sexo em nossas congregações. É imperativo que estejamos hoje proclamando a verdade sobre a obra de Deus que temos visto aqui no Arizona. Como disse o antigo Bispo Primaz [da igreja episcopal norte-americana], Dom Edmond Browning em 1986: "não haverá párias nesta igreja."

Por conta desse “ethos de inclusão” que nós, episcopais anglicanos tanto gostamos de reafirmar, cabe aqui a reflexão para não cairmos na tentação de "cobrar" para que pessoas tenham livre acesso ao Deus de Amor. Toda vez que impomos condições estamos, na verdade, cobrando ingresso. Neste sentido, consideramos que há barganhas a fazer... Todas as vezes que temermos o que os outros vão pensar de nós, na verdade, estamos buscando mecanismos para continuar barganhando com Deus. 

Minha gente, Deus não é uma ideologia político-religiosa. Deus não faz barganha com ninguém nem com seu Santo Evangelho, o qual nos chama a todos sem fazer distinção de pessoas. Deus nos convida a desconstruirmos ideias supostamente espirituais de que Ele favorece alguns em razão de comportamentos, sexualidade, lá o que seja. 

É chegada a hora do amadurecimento da fé e de nos posicionarmos, de fato, em prol do amor Daquele que nos acolheu a todos incondicionalmente. Só se irrita e se levanta contra isso quem ainda vê Deus como negócio, como patrão, como recompensador de boa obra... se fosse por boa obra, se fosse por sexualidade ou qualquer condicionante ou tentativa de barganhar com Ele, ensina-nos o apóstolo São Paulo , já não seria mais Graça!

A catraca foi liberada pela força do grito exclamado da Cruz: "Está consumado!"

Anunciemos Cristo. Vivamos Cristo. Deixemos Deus ser Deus, sem ideologias de controle e poder, liberando portas, catracas e todos os entraves para que não haja párias em nossa igreja.

Pense sobre isto!

R. P.
21/10/2014
Movimento Episcopaz
Anglicanos Pró-diversidade & Pela Paz

16 de outubro de 2014

:: O que os outros vão pensar de nós?


  Reflexões despretensiosas sobre o Sínodo para a Família da igreja latina e a inclusão das Famílias na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

Por todos os veículos de comunicação se tem notícia que o Papa Francisco, líder da maior religião cristã, se reúne neste momento no sínodo sobre a família sim, está no singular com os bispos da igreja católica romana. O histórico encontro ocorrerá até o próximo dia 19 de outubro na cidade-estado do Vaticano.

Nas Assembleias que acontecem sabe-se que algumas famílias foram convidadas para darem depoimentos muito particulares nos mais diversos subtemas que envolve a questão da família frente aos desafios contemporâneos. Temas considerados delicados ou difíceis no que se refere a uma maior abertura no acolhimento de algumas realidades estão sendo debatidos neste momento. Segundo o Portal G1, que entrevistou alguns bispos, uma coisa não está sendo debatida, até porque parece haver um consenso: o matrimônio é e continuará sendo indissolúvel. O que se analisará será o olhar para as famílias que vivem/viveram matrimônios difíceis e se encontram no limbo das chamadas situações “não amparadas” (como os divorciados, por exemplo).

O sínodo é histórico porque a igreja latina finalmente encara a realidade com interesse em ouvir, e não apenas ditar o que seja certo ou errado. A questão que envolve os fieis homoafetivos é outro exemplo de como séculos se amalgam neste sínodo que, espera-se, venha realmente evocar bem-vindas mudanças.  

Ora, qualquer pessoa sabe desde que o mundo é mundo que fieis divorciados ou LGBTs não são tão invisíveis quanto alguns desejam. Por outro lado, não se trata de a igreja católica passar a aceitar a dissolubilidade do matrimônio ou a homossexualidade ou, ainda, elevar as uniões afetivas dos LGBT ao sacramento que, já alardearam vários bispos, é e continuará sendo restrito a um homem e uma mulher em “comunhão íntima por toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação” (§ 1601 do Catecismo romano), mas sim a de acolher seus fieis nestas condições, de não condená-los ou perpetuar o estigma que já carregam por culpa e ordem dos próprios documentos oficiais, algumas vezes com a lembrança de que alguns deles são sujeitos de “depravações graves” (rubrica 103 no mesmo parágrafo do Catecismo).

No entanto, à parte destas considerações, erra quem crê ser impossível que nada mude. Passos já estão sendo dados no sentido de discutir a questão e costurar um Futuro ao menos diferente do que se vê até hoje. "Os homossexuais têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã: seremos capazes de acolher essas pessoas, garantindo a elas um espaço maior em nossas comunidades? Muitas vezes elas desejam encontrar uma igreja que ofereça um lar acolhedor”, propõe a reflexão do documento que está sendo analisado nesta última semana do sínodo.

Outro ponto digno de reflexão que o sínodo católico busca explorar tem a ver com a resposta para não embaraçar o caminho das crianças filhas de pais homoafetivos.

Na ponta do lápis, a bem da verdade, o papel indiscutivelmente histórico deste sínodo é o de trazer uma resposta mais compreensiva para realidades que estão diante de todos nós e já se assentam há anos nos bancos das comunidades católicas. Mas, entendamos: a resposta não será mudar o Magistério. Em outras palavras: não se deixará de considerar a homoafetividade como “atos desordenados” ou “antinaturais” ou de delimitar que uniões entre pessoas do mesmo sexo jamais serão sacramento nem poderão receber bênçãos válidas ao menos portas adentro das igrejas. Em relação aos divorciados, embora haja duas correntes teológicas que se enfrentam dentro do sínodo, aguarda-se que mudanças não sejam no tom “seis por meia dúzia” que o texto muito provavelmente fará com os homoafetivos.

Ora, o caminho em pavimentação pelo sínodo pode não parecer um avanço para muita gente que espera a retirada do “coelhoaceitaçãoplena” da cartola. Há correntes e grupos progressistas católicos que já deliram, pensam até que um casal de lésbicas, por exemplo, agora poderá entrar de mãos dadas numa missa e se apresentar como casal diante de todas as pessoas. Vale uma advertência: Não faça isso, a não ser que esteja certa da resposta [da comunidade] que virá!

Não se faz mágicas dentro de uma igreja tão antiga quanto majoritariamente conservadora e historicamente contra [grande parte dos] avanços científicos na área da família e sexualidade humana. É bom lembrar que até para uma pílula contraceptiva que seja tem um documento oficial condenando e apontando como pecado. Hipocrisia, já que a maior parte das fieis católicas fazem uso daquilo que é condenado. Por aí se percebe a importância de um sínodo que, pelo menos, ousa discutir o que ninguém queria encarar como realidade. Mudanças certamente estão a caminho, mesmo que esta geração não veja seus efeitos inclusivos acontecerem num estalar de dedos. As doses serão homeopáticas, como convém à prudência e à temperança das virtudes cardeais. Mas é inegável que as doses por si só já alimentarão a viva esperança dos nossos irmãos e de suas famílias.

O que ainda não está claro é como dialogar ou como manifestar ao menos o desejo de acolher ou respeitar sem abrir mão da mudança no catecismo oficial, isto é, sem impedir que o Ensino e a Moral (que geram a validação de pré-conceitos) continuem corroborando o que aí está. É certo que o tom dos discursos mudarão e que LGBTs católicos pularão de felicidade como excluídos que agora podem passear pelo Éden de cabeça erguida e se deliciar de todos os frutos como os demais fieis. Em parte sim, pois espera-se que os frutos sejam acessíveis a todos, exceto um, o mais importante, o que revela o “conhecimento do bem e do mal”, isto é, o que propaga a Doutrina pelo Magistério. Este fruto não se poderá tocar, nem o sínodo pretende ir para além de sua pauta.

O grupo majoritariamente conservador e os fundamentalistas católicos [que nada diferem de outros fundamentalistas religiosos na sana de esmagar quem creia diferentemente], os quais se empoderam há anos como vertente forte, crescente e que legitima tudo o que há de preconceito dentro da Igreja de Roma, certamente continuarão tomando as rédeas das congregações, do magistério e do direito: ‘Contenha-se em não mais ser associado à danação eterna por ser quem é ou, quando muito, por não ser tratado como solteiro quando o padre gente boa [e olhe lá!] estiver contigo nas quermesses da paróquia’, poderão ameaçar.

Entretanto, como ninguém pode impedir o fluxo do agir da Graça de Deus na extensão do nosso tempo [chrónos], estou convencido que resistências continuarão a existir, que bispos iluminados cada vez mais se levantarão como “vozes que clamam no deserto intolerante”, anunciando que Deus não faz acepção de pessoa alguma. Estes sinais já se fazem perceber aqui e acolá e, oxalá, tornem-se um bem-vindo e inexorável contraponto por todas as partes.

Não se deve jogar água fria no sínodo dos irmãos romanos, como tenho visto ativistas fazerem pelas redes sociais, porque só o tom mudará e a coisa ficará mais para a retórica. Concordo, mas para quem luta há décadas por aberturas substanciais qualquer vento de mudança já é para festejar. Um divorciado poder participar da Santa Comunhão, se realmente for aprovado, não é mudar? O filho de um casal homoafetivo não ser impedido da Primeira Eucaristia com as outras crianças, se realmente for aprovado, não é mudar? O bolo pode até continuar com aqueles velhos e conhecidos ingredientes de que [gays] são amados, deve-se acolhê-los com atitude misericordiosa, mostrar com o testemunho que agora podem levar uma vida que dignifique Cristo, que aqueles que vivem nas uniões continuem como estão mas, no que depender do pastoreio dos bispos nas suas dioceses, que estimulem os solteiros para a vida de castidade, etc. Enfim, o catecismo não mudará, mas é muito provável que se permita que a cereja ou lá o que seja no topo do bolo ganhe novos sabores, outras cores. Ponto para os divorciados e ponto para os gays católicos em união estável ou casamento civil.

Por outro lado, não posso deixar de questionar ao sabor da realidade factual: E quanto aos solteiros? Qual o resultado disso, na prática? Infelizmente, tomem-se homilias de cardeais falando de amor e terminando com a conjunção adversativa “mas”... E tomem-se homilias de padres, bispos e arcebispos falando das “mudanças” extraídas do Sínodo para a Família (sempre no singular, como convém a quem entende matrimônio apenas entre um homem e uma mulher), todavia, sem abrir mão das velhas conjunções adversativas ao final...

Mutatis mutandis, não deixarei de orar e interceder pelos irmãos romanos, não apenas porque creio e professo constantemente que a Igreja de Cristo é Una, Santa, Católica e Apostólica, mas porque do outro lado nas margens do mesmo Rio de Água Viva estamos nós, episcopais anglicanos, escolhendo há muito mais tempo verdade seja dita o que agora o Sínodo para a Família da igreja católica romana está tentando: encarar com leveza as relações humanas, mesmo que estejam distantes do “ideal” oferecido por Deus antes da Queda; bem como  trazer pra perto divorciados, homoafetivos, pais e mães solteiras juntamente com suas crianças.

Numa coisa temos em comum as já conhecidas conjunções adversativas. Mas, poréns, todavias, etc. Mudam-se os contextos, os cânones, os estatutos e a própria eclesiologia, mas na Província brasileira não se permite canonicamente uma bênção para casais do mesmo sexo (falo daquelas públicas, dentro dos templos), que dirá realizar um matrimônio igualitário para fieis anglicanos em plena comunhão com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Ao considerar o clero, não se elege uma bispa em nenhuma diocese anglicana. E não é segredo para ninguém que nas comissões de ministério diocesanas aplica-se o jeitinho brasileiro da política americana do “don’t ask, don’t tell” aos candidatos a sagradas ordens, até porque já aprendemos há mais tempo que nossos irmãos romanos que a vida privada alheia não nos diz respeito. Mas, e daí se seminaristas e membros do clero em relacionamentos homoafetivos precisam silenciar para não perder credibilidade e otras cositas más?

Como ousaremos falar dos irmãos romanos, logo eles que, ao menos oficialmente, dizem “não, casal é entre homem e mulher e com fim de procriação!” ou “não, é ato desordenado, é pecado!”, sem se preocupar com que os outros os taxarão enquanto igreja? Sim, eles não têm um Livro de Oração Comum lembrando que é seu dever respeitar a dignidade de todas as pessoas!

Não se trata aqui de defender exposições gratuitas ou marketing desnecessário de qualquer grau de ativismo, mas de se viver pacificadamente na Graça sem precisar pensar no que os outros vão falar a respeito, sem precisar de disfarces na hora de dizer que não é o seu amigo ou a sua amiga que está ao seu lado no jantar de casais da paróquia ou quando as famílias forem chamadas para seguir até o altar de mãos dadas para receber bênçãos e orações pelo aniversário das bodas.

A igreja católica romana, estruturalmente muito mais complexa e indiscutivelmente maior que a igreja Anglicana [que dirá a autônoma Província brasileira!], caminha no ritmo que o peso de suas estruturas suportam. Mal comparando, ninguém seria insano a ponto de mudar ou acrescentar um idioma oficial para um povo ou uma comunidade imensa da noite para o dia na base da canetada. “A partir da publicação de nosso documento sobre a família, todos os católicos romanos poderão falar e escrever não apenas em português mas as comunidades que desejarem poderão usar o iorubá. Publique-se. Cumpra-se”. O próprio acordo ortográfico da língua portuguesa, em vigor entre todos os sete países de idioma oficial português, levou anos a partir dos anos 70 sendo costurado pela Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa para que se chegasse um documento aprovado em 1990 e só vigorando no Brasil em 2009, quase vinte anos depois (e, ainda assim, com três anos no Brasil e seis anos em Portugal para ser definitivamente aplicado por todos). Isto para mudar menos, bem menos, que 5% das palavras do idioma. Imagina então para mudar e aplicar as mudanças quanto a temas muito mais delicados no que tange a famílias?


A coisa é muito mais complicada que imaginam os ativistas de plantão. Mudanças significativas demoram acontecer nas grandes estruturas. Temos décadas de ordenação feminina no Brasil mas até hoje nenhuma bispa, nem mesmo sufragânea em diocese alguma. Que impedimentos ainda existem? A comunidade episcopal anglicana do Brasil é reacionária, machista ou misógina? Evidente que não; muito ao contrário (os cismas que já sofremos estão aí como prova que continuamos buscando caminhos para o diálogo com as mudanças sociais).

Temos compreendido há muito tempo que a sexualidade humana é complexa e ao mesmo tempo diversa; que inúmeros e respeitáveis estudos concluem que a homoafetividade é um dado da vida e não uma opção, razão pela qual não violentamos pastoralmente ninguém a ser aquilo que não reflete a verdade do próprio ser, tanto é que não impomos celibato ― até porque compreendemos que é uma vocação e não um modo de vida.

Emitimos notas de apoio e sobretudo compromisso a direitos pela dignidade de todas as pessoas, ressaltamos nosso “ethos de inclusão”, fazemos questão de aprender e reaprender todas as vezes que renovamos os votos batismais pelo Livro de Oração Comum que defenderemos a justiça e respeitaremos a dignidade de todas as pessoas, criamos indabas nas regiões provinciais, nomeamos delegados e discutimos “Famílias e Diversidade Sexual”, fazendo questão de pontuar que o termo é propositalmente plural (ao contrário do sínodo dos irmãos católicos),mas e daí? Qual a parte do Cânon foi alterada? Em que igreja um casal, constituído por membros em plena comunhão, poderá receber a bênção sobre sua união afetiva à vista de todos, sem essa de bênção pela porta dos fundos e num dia e horário “mais vazio”, sem alarde?

“Ah, mas a igreja precisa amadurecer mais para que todos aceitem essa realidade!”, poderão dizer pensando bem mais nos tradicionalistas e reacionários que propriamente na continuidade da Missão, a qual nos aponta não apenas a Porta Estreita [o caminho do amor que a todos acolhe] mas também a decisão que fazemos diariamente de nos vermos como servos de Cristo, ante Quem procuramos agradar... tal como Paulo escreveu aos Gálatas [1,10].

Por que precisamos amadurecer mais? Estamos vivendo como anglicanos ou nos omitindo e ao mesmo tempo dando corda ao fundamentalismo que tanto abominamos? É falta de catequese? Não creio, basta ver nossa teologia, nossa eclesiologia e inúmeros documentos de peso que produzimos ao longo das décadas sobre os temas que só agora os irmãos católicos romanos decidiram encarar de frente, buscando um novo olhar pastoral.

Preocupamos com que os outros vão pensar de nós a esta altura do campeonato? Quando todos já sabem que não somos uma igreja burra, reacionária nem preconceituosa? Que não nos fechamos em nós mesmos, mas historicamente nos assentamos gostosamente nas rodas ecumênicas e nos debruçamos nos diálogos interreligiosos?

Poderia citar diversos hinos anglicanos que apontam em Quem temos crido e que antes importa sermos agradados pelo Deus de Toda Graça e Misericórdia a impedir que o fluxo de seu amor aconteça em razão de não desagradar a quem quer que seja, principalmente aqueles e aquelas que se recusam a participar das Bodas do Cordeiro [que convidou quem viu pelo caminho da existência sem fazer perguntas ou impor condicionalidades]. Poderia, mas considerei adequadamente oportuno fazer referência aos versos de Cássia Eller:

“Bobeira é não viver a realidade!”

A realidade para nós, episcopais anglicanos, é que se já entendemos que Deus não é conforme nossa atitude “preocupada” ou “cerceada” acerca do que os outros vão pensar de nós; se já entendemos que Deus é Amor e não se submete a essas coisas que nos fazem, de tempo em tempo, recuar ou calar para não sermos atacados pelo “olhar de juízo coletivo” (com todos os seus desdobramentos punitivos ou de “isolamento”); se já discernimos na certeza inabalável da fé que é do Senhor que vem nossa força, socorro bem presente nos dias de atribulação ou isolamento; se já compreendemos que Deus Não Faz Acepção de Pessoa Alguma embora isso seja uma verdade que desperte ódio naqueles que dizem amar a Deus mas são incapazes de ouvir seu Evangelho e se render ao mesmo amor! , mesmo que isso vá de encontro ao pensamento intolerante coletivo, então, se ainda assim, preferimos nos manter “diplomaticamente em cima do muro” para que isto não desperte o furor daqueles que odeiam quem quer que assuma viver conforme o espírito do Evangelho, que até quem diz odiar sabe que é verdade mas não pode assumir porque decidiu não poder aceitar, estamos diante do velado consentimento para que todas as formas de intolerância, ódio e perseguição aconteçam, à custa de vidas e consciências ainda cativas quando, na verdade, Deus sempre as amou sem impor condicionalidade alguma.

Veja que paradoxo! Não fazemos o que Deus faz sem pedir licença a ninguém porque é amor e não pode negar-se a si mesmo!

Acredito que ainda nos reste salvação enquanto tivermos corajosamente nos reunindo para repensar o tempo todo nossa Missão no mundo atual, complexo e com tantas particularidades (os indabas que ainda acontecem são prova incontestável disso!). O problema está quando se decide não querer ir contra o “ódio coletivo” daqueles que sabem que Deus é Amor mas não se rendem a este amor, justamente para que não se desprenda de alguns laços feitos nos acertos de coletividade dos grupos, pois a escolha é para seguir o fluxo deste mundo, o qual mede pessoas e as divide em categorias e graus de importância. Certamente esta não é escolher a melhor parte, aquela acerca da qual Jesus disse que nos seria acrescentada na Eternidade em razão da fidelidade ao espírito de seu Evangelho, mas a pior parte, a mais fácil, a que não nos fará sofrer com o que os outros pensarão a respeito de nós...

Todavia, esta é a decisão de Pedro antes da conversão, assentado no pátio da casa do sumo sacerdote Caifás, preferindo seguir o fluxo daqueles que estavam próximos, à vista do que poderiam dizer a respeito:

“E, daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente também tu és deles... Então começou ele a  jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou. E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus” (Mateus 26,73-75).

Esta também é a decisão que outros grupos tomam enquanto sujeitos portadores da “síndrome do irmão mais velho” (da parábola do filho pródigo).

O medo do olhar da maioria de um e o ódio contra a liberdade exercido pelo outro estão diante de nós. Dou graças a Deus por não serem até o presente momento nossos caminhos. Jesus nos ensina que estes não são os caminhos de vida e que quem quiser segui-Lo deve estar atento que o mundo nos odiará pelo simples fato de não nos assentarmos nas rodas dos intolerantes. Jesus mesmo nos advertiu quando disse: Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (João 15,19).

As reflexões se debruçam em dois questionamentos para finalizar o que precisamos encarar de frente enquanto Igreja que é Sal e Luz fora do saleiro, isto é, no sopão existencial:

Qual o caminho queremos seguir como anunciadores do Evangelho?

Importa saber o que os outros vão pensar de nós a partir dessa escolha?

Como está escrito: “Fiel é a Palavra: se com Ele morrermos [para o mundo e seus esquemas de medição de pessoas, de desimportância de alguns, etc], também com Ele viveremos; se sofrermos, também com Ele reinaremos (2 Timóteo 2,11-12).

Por Aquele que nos ofereceu a própria vida por amor a todas as pessoas, em homenagem ao Mestre dos mestres neste 15 de outubro de 2014,

R. P.


14 de outubro de 2014

:: A síndrome maligna do auto-engano: Não herdarão o reino de Deus...


Vez por outra aparece nestas praias alguma mensagem ou comentário ironizando a Graça de Deus, a qual de fato é loucura para quem se perde nos seus próprios equívocos. A Graça só é Poder de Deus para a salvação de quem crê não em si ou nos seus currículos apresentáveis , mas em Jesus.

Ontem mesmo a gente recebeu algo que traduz isso, bem ao estilo: “é tudo bonitinho o que vocês escrevem, mas não tem jeito. Não entrarão no reino de Deus os...”. O cara passou a listar quem entraria e quem não entraria, assegurando que ele tinha dado uma espécie de carteirada nos apóstolos que escreveram suas listinhas e que tava dentro justamente porque tava fora das tais listinhas. A gente sabe que a coisa é tão “trash” que só rindo mesmo. O ruim é perceber que tem muita gente adoecida pelo “self” pensando exatamente assim!

Como nem todo mundo tem a chance de estar no Rio de Janeiro e participar de nossas aulas lá na paróquia, a gente resolveu ampliar a discussão em torno da questão das Listas dos Salvos, coisa que a gente só faz para desconstruir toda essa engenhoca “da lei” que persiste em contaminar desgraçadamente o DNA de muita gente até hoje... às vezes, vindo até nossa pastoral despejar suas verdades absolutas que não nos servem.

Então, segue aqui a tentativa de (mais) uma Grande Lista, que não tem a pretensão de ser a lista de Paulo ou a lista de Schindler, mas já que todo mundo faz a sua, bom que se diga que o Evangelho também a criou antes de o mundo existir pelo espírito da Palavra, a qual tem Nome sobre todo o nome, a saber, Jesus.

Desarmem os corações, nada de ranger de ódio enquanto a gente tiver anunciando quem entra e quem fica de fora. Só mais uma coisa: larguem também as pedras, pois nem é chegada a nossa hora e “nada podemos contra a verdade senão pela verdade”.


Preparados?


Nossa listinha daqueles e daquelas que não herdarão o reino de Deus:

01) Judeus (ou, na linguagem bíblica, “o povo da aliança, da lei e dos profetas”) pelo simples fato de serem judeus;


02) Gentios (ou, na linguagem bíblica veterotestamentária de Oséias, “o não-povo”; na linguagem neotestamentária, “os enxertados”, “os que não eram seus, mas o receberam”) pelo simples fato de serem gentios;

03) Heteroafetivos pelo simples fato de serem heteroafetivos;

04) Homo, bi ou poliafetivos (sejam afeminados ou não; deitem-se ou fiquem de pé com outro homem ou outra mulher ou não) pelo simples fato de serem homo, bi ou poliafetivos;

05) Assexuados pelo simples fato de serem assexuados (não é só quem deita com outro ou outra que tá fora... quem não deita com ninguém nem sente vontade também está fora!);

06) Celibatários pelo simples fato de serem celibatários, tendo feito votos de castidade a Deus ou não;

07) Brancos pelo simples fato de serem alvos, brancos, caucasianos ou até despigmentados na melanina da epiderme;

08) Amarelos, pardos, negros ou multicoloridos pelo simples fato de serem amarelos, pardos, negros ou multicoloridos;

09) Solteiros pelo simples fato de serem solteiros, vivendo solitários, acompanhados ou em amizades coloridas;

10) Casados “no papel”, com a chancela do Estado e dos carimbos e certificações cartoriais pelo simples fato de serem casados “no papel”;

11) Amasiados, juntados, em relacionamentos enrolados, em união estável ou tendo encontros pelo simples fato de serem amasiados, juntados, viverem enroladamente com alguém, em união estável ou pelo fato de terem apenas encontros com ou sem compromisso;

12) Amantes, sejam ou não destruidores de lares pelo simples fato de serem amantes, tendo ou não “destruído” qualquer lar, qualquer relação afetiva anterior a sua;

13) Destros, canhotos ou ambidestros pelo simples fato de serem destros, canhotos ou ambidestros;

14) Religiosos cristãos (contando ou não contando tempo de igreja ou genealogia de validação e respeito eclesiástico; ou, para alguns, falando ou não falando em outras línguas) ou não-cristãos pelo simples fato de serem religiosos cristãos (contando ou não contando tempo de igreja ou genealogia de validação e respeito eclesiástico; falando em línguas ou nem tendo língua pra falar) ou não cristãos;

15) Agnósticos, ateus, ufólogos e crentes em duendes, fadas, ETs de Varginha e monstros do Lago Ness pelo simples fato de serem Agnósticos, ateus, ufólogos e crentes em duendes, fadas, ETs de Varginha e monstros do Lago Ness;

16) Altos, magros, belos, sarados, não transplantados, HIV negativados, não usarem óculos, aparelhos ortodônticos nem serem pessoas portadoras de qualquer deficiência pelo simples fato de serem altos, magros, belos, sarados, não transplantados, HIV negativados, não usarem óculos, aparelhos ortodônticos nem serem pessoas portadoras de qualquer deficiência;

17) Baixinhos, gordinhos, feios (ou lá o que os padrões de beleza desqualifiquem), portadores de síndromes ou quaisquer características físicas, genéticas ou mentais enquadradas no Código Internacional de Doenças pelo simples fato de serem baixinhos, gordinhos, feios (ou lá o que os padrões de beleza desqualifiquem), portadores de síndromes ou quaisquer características físicas, genéticas ou mentais enquadradas no Código Internacional de Doenças;

18) Analfabetos ou instruídos pelo simples fato de serem analfabetos ou instruídos;

19) Sóbrios, ébrios ou pessoas em greve de fome a pão e água pelo simples fato de serem sóbrios, ébrios ou pessoas em greve de fome a pão e água;

20) Adoradores de música clássica, hinos e cantos gregorianos pelo simples fato de serem adoradores de música clássica, hinos e cantos gregorianos;

21) Funkeiros que não usam headphone nos ônibus, nos trens e nas vans (se bem que funkeiros que usam também não!) pelo simples fato de serem funkeiros que não usam headphone nos ônibus, nos trens e nas vans (se bem que já disse: funkeiros, não!);

22) Roqueiros em geral pelo simples fato de serem roqueiros (yeaaaaah!);

23) Pudicos, envergonhados, tímidos, extrovertidos e safadinhos pelo simples fato de serem pudicos, envergonhados, tímidos, extrovertidos e safadinhos;

24) Comedores de lagosta, siri, camarão e frango ao molho pardo pelo simples fato de comerem lagosta, siri, camarão e frango ao molho pardo (Double cheeseburger e qualquer prato que contenha carne cozinhada no leite também não!);

25) Aqueles que guardam o sétimo dia, como manda o Pentateuco pelo simples fato de guardarem o sétimo dia, como manda o Pentateuco;

26) Aqueles que guardam outros dias que não o sétimo pelo simples fato de guardarem outros dias que não o sétimo;

27) Aqueles que não jogam no bicho, nas loterias, nos cassinos, nas maquininhas caça-níqueis, nos bingos, nas rinhas de galo e nas corridas de cavalo pelo simples fato de não jogarem no bicho, nas loterias, nos cassinos, nas maquininhas caça-níqueis, nos bingos, nas rinhas de galo e nas corridas de cavalo;

28) Quem rouba o dízimo do Senhor, dando menos de 10% na igreja enquanto gasta muito mais nas baladinhas, nos salões de beleza e nos churrascos na laje pelo simples fato de enganar o tesoureiro da igreja dando menos de 10% do que ganha enquanto gasta muito mais nas baladinhas, nos salões de beleza e nos churrascos na laje;

29) Aquele ou aquela que adultera, pensando em fazer ou fazendo pelo simples fato de adulterar ou pensar em adulterar;

30) Mentirosos, avarentos, ladrões, maldizentes e feiticeiros (tanto os de magia negra quanto os do mundo gospel) pelo simples fato de serem mentirosos, avarentos, ladrões, maldizentes e feiticeiros (tanto os de magia negra quanto os do mundo gospel);

31) Gente da paz, da verdade e do amor pelo simples fato de serem gente da paz, da verdade e do amor;

32) Educados, gentis, acolhedores e hospitaleiros pelo simples fato de serem educados, gentis, acolhedores e hospitaleiros;

33) Praticantes, conhecedores, leitores, decoradores e exegetas da bíblia ou de qualquer livro considerado sagrado pelo simples fato de serem praticantes, conhecedores, leitores, decoradores e exegetas da bíblia ou de qualquer livro considerado sagrado;

34) Flamenguistas, corintianos ou qualquer que seja o time de futebol pelo simples fato de serem flamenguistas, corintianos ou qualquer que seja o time de futebol;

35) Qualquer gosto, preferência, ajuste ou desajuste, característica no ser ou fora do ser, extrato bancário ou comprovante de residência que tenha pelo simples fato de ter qualquer gosto, preferência, ajuste ou desajuste, característica no ser ou fora do ser, extrato bancário ou comprovante de residência; e, por fim:

36) Qualquer que tenha sido o planeta do qual você é originário, nesta ou em qualquer Galáxia ou Cosmo, pelo simples fato de ser terráqueo ou ter vindo de outra Galáxia ou Cosmo.

O que a gente quer dizer com tudo isso, que ninguém entrará no reino de Deus? De certo que não! Antes, que ninguém carrega méritos (na linguagem bíblica o termo correto é “justiça própria”), seja em que ordem ou grau for, ainda que já tenha nascido de uma forma (ser alto ou baixo, homem ou mulher, por exemplo); ou tenha adquirido elementos e qualificações até ficar de outra (enriqueceu ou empobreceu, crente ou ateu, por exemplo).

Infelizmente, para o olhar farisaico a cegueira é incapaz de se perceber engolindo camelos enquanto assopra mosquitos...

Dito de outra forma, se se lê no texto bíblico de I Coríntios 6 que Paulo em sua lista declara que “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus”, imediatamente a natureza pecaminosa que todos carregamos se manifesta com ego inflado, lutando para tomar a frente da Graça divinal:

“Ufa! Tô fora da lista... passei no crivo de Deus!”

É por pensar-sentir-agir assim que os fariseus contemporâneos vivem no limbo entre a Lei e a Graça, causando males sem fim para a fé, pois consideram que são merecedores do céu em razão de qualquer coisa que os distinga dos sujeitos elencados pelo apóstolo. O “ufa!” que os fariseus dão são o alívio de uma alma teimosamente dormente, que arrogantemente se recusa a entrar para a mesma Boda do Cordeiro preparada para todos e todas que crerem (e porque creem lhes será imputado para a justiça no Filho de Deus).

O que não conseguem entender, em razão da cegueira que a gente  mencionou, é que os sujeitos elencados por Paulo não se fecham em grupos de pessoas. Eles são apenas a “amostragem” de que “todos pecaram e [todos] destituídos estão da glória de Deus”. A lista não tem fim e envolve a todos nós!

Se tem algo que é insuportável para a consciência de um fariseu é saber que na Cruz ficou decretado no céu, na terra e no inferno, que o que aprendemos no exemplo dado por Jesus com a  Parábola do Credor Incompassivo passa a ser a Lei da Graça para todos os que confessam a Graça de Deus sobre si mesmos; pois quem recebeu perdão infinito, tem que oferecer perdões finitos; quem muito foi amado incondicionalmente, tem que oferecer amor sem pedir credencial de quem quer que seja.

Isto, cá entre nós, é absurdamente insuportável!

Que caminho insuportavelmente estreito é este!

Daí, alguns podem se irritar e bater no peito com orgulho infantil e dizer:

“Eu vou entrar no Céu porque mereço estar lá... não sou como você!”

Há 2.000 anos atrás, numa aula prática, dessas em campo, o Mestre Galileu levou seus alunos para lhes contar uma parábola de alguém que não leu uma lista como esta, mas a tinha tatuada na alma, a ponto de ter dito em alta voz numa oração:


“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano... Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18,11-12).


E a aula do Cristo terminou com a sentença:

“Digo-vos que este [o pecador publicano] desceu justificado para sua casa, e não aquele [o que crê que não está nas Listas de Paulo ou Pedro, por isso, entra no reino]; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” (Lucas 18,14).

E, mais uma vez:

“Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor!” (2 Coríntios 10,17).

Não posso gloriar na condição que nasci? Na cor da minha pele? Nas minhas origens religiosas? Na minha orientação sexual padrão da maioria?

Definitivamente, não!

"Isso é injusto!" 
— dirão os religiosos de plantão. E se revoltarão com a Graça Escandalosa de Jesus que nos nivela por igual, questionando: "Por quê?"

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3,23).


Contudo, para nossa alegria, há uma Solução:


“Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 15,57).


De tal maneira que:

“ ...a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome (João 1,12).

Alto lá! Não fala de listas de apóstolo algum, mas de crer, de confiar, de receber a Palavra Encarnada em si mesmo, por fé. Que diferença!

Mas quantos crerão quando a alma está doente do auto-engano? Quando se crê que “merece” porque se vê como “bom” ou “boa” o bastante para não estar enquadrado nas listas de Paulo, Pedro, João, José, Maria, Zebedeu, Valquíria ou Valeska Popozuda?

Sim, quem foi que disse que não estar numa lista preparada por alguém, num certo contexto histórico, limitado a sua própria ideia de mundo, de vida e de moral, garante ticket de entrada carimbado ou ala VIP no reino dos céus?

Seria pelo fato de não praticar as chamadas obras pecaminosas (leia-se: tudo e qualquer coisa que perpassar pela genitália, fruto da moral que insiste em ser a base da fé daqueles que não creem em Jesus)?

O xiz da questão é pecado não é o que perpassa pela genitália, idólatras da moral! Pecado são as más intenções e toda forma de arrogância que habitam pelo lado de dentro do ser!

Vale lembrar a chateação de Cristo com esse papinho de gente tola, adoradora de si mesma:

Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato!” (Mateus 23, 26).

Quem deu a homem ou mulher ou ainda a anjos, alturas, presente ou porvir qualquer autoridade para garantir quem entra e quem não entra?

Ninguém deu... sequer as listas de Paulo ou de Pedro!

Infelizmente, a coisa anda tão arraigada dentro de alguns que não conseguem ver (tá entendendo agora por que Jesus chama de “fariseu cego”?!?)...

E, de fato, não verão enquanto não desarmarem seus corações do auto-engano de crer que merecem o Céu!

Triste constatar, mas a doença do véu (os que ainda tentam se justificar por si mesmos) cega multidões!

Ora, fora de Cristo não há salvação. Preste atenção, fora de Cristo; e não fora das listas de Paulo, Pedro ou qualquer que seja o autor bíblico.

Pois foi o próprio Cristo quem nos ensinou que era a Videira Verdadeira e que sem Ele, fora de seu amor, todas as nossas obras e práticas não seriam validadas como “aceitáveis”.

E por que não, ora bolas?

Porque Deus não é homem ou mulher para ter um olhar moral sobre a vida e as pessoas!

Então, tudo vale? É só sair fazendo o que der na telha?

Assim pensam os tolos, que não nasceram de novo, isto é, não mudaram o pensamento e continuam insistindo que é por fazer ou deixar de fazer. De uma vez por todas: não é por obras que alguém agrada Deus ou entra em listas de “excelência” ou recebe selos de qualidade!

Todo aquele que não depende da seiva da Graça que da Videira Verdadeira procede — não importa quem ele seja —, jamais produzirá o fruto que permanece, pois, este, é o fruto do amor e da vida que brota do casamento do ramos com a Videira-Jesus!

O lance não é fazer ou deixar de fazer, mas de crer na Videira-Jesus... e porque crê, não vive na prática do erro do amor em relação ao próximo e a si mesmo!

A gente falou de qualquer coisa com vínculo na genitália? Não, não falou. Pecado é visceralmente outra coisa muito maior e demasiadamente mais contundente!

Um dos graves equívocos dos auto-enganados, que creem ser mais dignos que outros em razão do que tenham a apresentar (ser cristão batizado e dizimista, por exemplo) ou sejam (ser heteroafetivo, gente boa e gentil, por exemplo), é que ao proclamarem com suas vidas ser discípulos de si mesmos, negam o Sacrifício da Cruz, o único que vale para quem crer.

E mais:

Ao devotarem a homens, mulheres, livros ou textos um valor sobremodo mais verdadeiro que ao Único que é Digno de Receber a Honra e o Louvor (Jesus), crendo, por exemplo, que tudo o que está escrito é Revelação da Palavra de Graça, sem com isso ver quando Paulo ou Pedro estão cheios do Evangelho e quando eles estão apenas “meio-cheio” de si mesmo, é o que torna “inspirado” o que não passa de um olhar humano ou até um surto e que, portanto, gera o que se vê como desgraça para a fé.

Por fim, como é dito nas nossas aulas de Catequese na paróquia da Santíssima Trindade, sede do Movimento Episcopaz:

A Escritura só pode ser entendida depois que o indivíduo discerniu a Encarnação da Palavra, justamente porque é em Jesus, e a partir Dele e de Seu espírito e modo de ser-ver-sentir-olhar-respeitar-acolher, que eu posso ver o que é Palavra de Deus, e qual é o seu espírito.

Uma vez que isto está instalado em você tudo fica simples e claro. E você não vacila mais quanto ao fato que surge em você uma inamovível convicção quanto ao fato que o Evangelho não é um corpo de listas de podes e não podes, nem uma validação imbecil de bom mocismo moral diante de Deus, mas uma maneira de ver, entender, discernir e experimentar a vida e as múltiplas formas de relações com Deus, com as mais variadas pessoas, de todas as tribos urbanas e raciais, assim com toda a Criação e com o “todo” da própria Criação.

Agora, se nada disso “mudar o teu pensamento” (esta expressão está no original do texto que narra o diálogo de Jesus com Nicodemus), impossível será ver o reino de Deus... e você provavelmente continuará se auto-enganando (e pior, anulando o Sacrifício da Cruz) crendo que por ser assim ou por não ser assim como outros diferentes de você, foi premiado (mereceu!) e ganhou o ticket de entrada no reino de Deus.

A advertência — que não é da gente — é severa:

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei [os que acreditam que sendo branco ou negro, hétero, rico ou pobre, cristão batizado e dizimista ou qualquer outra coisa]; da graça tendes caído” (Gálatas 5,4).

A gente sabe que não é fácil abrir mão de se garantir diante de Deus, mas não tem jeito. Ou a gente crê que somos pecadores [pela Santa Cruz, esqueça toda e qualquer lista que um dia tomou conhecimento!] e que carecemos da glória de Deus, não tendo justiça alguma a apresentar, ou a gente vai amargar a vida toda vendo “meretrizes e publicanos” (pode acrescentar aqui aquelezinho ou aquelazinha que você se rasgaria todo de raiva) tomando os primeiros lugares no reino do Filho de Deus, como, aliás, já acontece.

Se, pois, o Filho nos libertar da Síndrome maligna do auto-engano, verdadeiramente seremos livres para amar sem reservas a quem quer que seja... como Deus, que não é tolinho nem doente, o faz antes da fundação do mundo.

Ou você não sabia que o Cordeiro de Deus preparou o antídoto para a doença do auto-engano, das barganhas pelos currículos de bom mocismo e pelas listas morais de podes e não podes?

Pois Ele mesmo, o Cordeiro de Deus, “foi imolado antes da fundação do mundo” (Ap. 13,8).

Não sabia? Ih! Quanta desinformação, heim!


R. P.
14/10/2014






8 de outubro de 2014

:: Em dias de Jair... 190, ajude-me!



Um tal de Jair, que está de ego inflado por ter sido o campeão (leiam de novo, não foi engano: campeão) de votos para a Câmara Federal pelo Rio de Janeiro, está falando cada coisa ultimamente que nem sei se ele é psiquiatricamente são. Em entrevista ao portal Terra no dia 06/10/14, reproduzido pelo Portal Forum, chamou a Comissão Nacional da Verdade de "cafetina" e seus integrantes de "
sete prostitutas". Ninguém fica mais tão surpreso assim; afinal, o tal senhor quer que as atrocidades no período que ele mais amou (a ditadura militar) permaneçam sem esclarecimento e punição; que eu e você paguemos caro pela internet (porque ele é contra o marco civil); que só brancos e uns poucos negros entrem para as universidades (já que é contra as quotas, sejam onde for) e que parlamentares tenham cada vez mais conforto (ele é contra qualquer corte na verba parlamentar, de terno a uso de carros oficiais).

De propósito não mencionei outras causas que o tal Jair defende. Vou poupar a você e a mim mesmo disso, pois é humilhante demais para nossa Democracia.

Tudo isso, porém, me entristece apenas por um fato: o meu Rio de Janeiro parece estar majoritariamente mais reacionário e na contramão dos direitos civis, pois fez deste senhor o campeão de votos. Não estou fazendo comparações, mas diante das atrocidades que Jair já disse é como se mais de 460 mil moradores do Rio de Janeiro aplaudissem para que outros tantos Amarildos sejam torturados dentro das UPPs e seus corpos sumam; para que mendigos, doentes usuários de drogas e favelados sejam levados para bem longe "das famílias de bem, educadas e com boa estirpe"... Para onde? Só Deus sabe...

Fico aqui pensando se Jesus vivesse nesses dias tão nebulosos que fazem de Jair Bolsonaro um campeão de votos, como já teriam-no matado a sangue-frio, carbonizado seu corpo em algum matagal e possivelmente espancado Santa Maria, sua mãe, que não se separava dele, até que se escondesse na casa de familiares (Santa Isabel, sua prima, de repente) ou fosse socorrida por alguma ONG de proteção a vítimas da violência...

Fico aqui pensando como eles ("ele" são "eles" e são mais de 460 mil eleitores) dizem louvar a Jesus Cristo em sua maioria, se de fato Jesus foi tudo o que eles odeiam e querem varridos do mundo?

Ninguém precisa ser teólogo — basta querer ser honesto e abrir mão da visão romântica dos evangelhos — para saber que Jesus andava com gente de má fama, pobres, favelados, abraçava leprosos, comia e bebia com essa gente, passava dias em suas casas, era maltrapilho e acredito que não usava sequer os cremes e os desodorantes da Avon nem da Jequiti. Ou seja, devia ser bem fedidozinho. Um Cristo sujo, fedido, amigo de gente imoral e oriundo da mais proletária das tribos de Israel: era um Nazareno, um habitante de Paraisópolis em SP, de Luziânia no DF, da Pedreira em Beagá, do Batan lá na zona oeste do Rio, da Cidade de Deus e de onde você imaginar que é terra de gente esquecida pelo Estado... Jesus, mas Jesus de verdade, era assim (ou é assim, se eu resolver acreditar que São Mateus estava certo quando narrou o Cristo dizendo que quem mata a fome de um faminto está, na verdade, alimentando-o; ou que quem veste um nu ou acolhe um necessitado, na verdade, está vestindo e cuidando do Maltrapilho de Nazaré).


Acerta quem diz que Cristo em nossos dias não precisaria pegar um teleférico, como os do Morro do Alemão que o PAC de Dilma construiu, e chegar até o Monte Calvário ao encontro da Cruz... Precisaria de asilo político. Os mais de 460 mil tipos de Jair Bolsonaros estão à solta pelo Rio. — Alô, é do 190? Salvem-me, sou do bonde de Cristo!


Ricardo Pinheiro
Movimento Episcopaz 
— Anglicanos Pró-diversidade & pela paz