19 de fevereiro de 2014

:: A fé, o léxico e Deus ::..

:: Breves reflexões acerca da decisão da Câmara dos Bispos da Igreja da Inglaterra sobre bênçãos para casais do mesmo sexo e da própria inclusão no seio da Comunhão Anglicana, em especial no Brasil ::




Recentemente uma decisão tomada pela Câmara dos Bispos da Igreja da Inglaterra, que é Igreja Mãe ou, para muitos, a Igreja Avó de muitas igrejas na Comunhão Anglicana, surpreendeu muita gente com o toque conservador na manutenção de um “status quo” em celebrar bênçãos matrimoniais apenas para casais de sexo diferente. Houve quem imaginasse que a decisão afetaria a todas as igrejas espalhadas pelo mundo. Não. Uma coisa é a Comunhão Anglicana, que muito nos orgulha ao caminhar como sinal vivo de Unidade em meio à diversidade; outra coisa são as diversas Províncias (o Brasil, por exemplo, é a 19ª Província da Comunhão Anglicana). Nossa Igreja tem estrutura, governo e decisão próprias. Assim o é com as demais Províncias.

Em relação à nossa Igreja, no entanto, o tema tem sido discutido com profundo respeito e com sinais de acolhida e inclusão, por meio de iniciativas nascidas dentro da Igreja e que já resultaram em cartas pastorais oficiais e debates teológicos, como o que nossa Pastoral tem promovido e continuará promovendo até que a decisão final seja tomada pelo Sínodo extraordinário que muito em breve teremos. A questão perpassa muito mais pela adequação de alguns termos face ao avanço da sociedade e à maturidade do tema (como um dia já o foi com a ordenação de mulheres). Nada tem a ver com exclusão nem com exclusividade. Muito ao contrário. Tem a ver com inclusão, que é respeito pela diversidade. E diversidade tem a ver com o que é diverso, jamais com o que é exclusivo.

Alguns termos, portanto, precisam ser repensados ou até mesmo ressignificados. Nosso desejo e nossa oração é que o Senhor continue nos guiando rumo ao Alvo, que é Cristo e seu modelo humano de acolhimento, respeito e diálogo até com quem crê e pensa diferente de nós. Jesus que sempre incluiu, mas jamais forçou ninguém a ser incluído. Jesus que incluiu mas que não privilegiou uns em detrimento de outros (a chamada “exclusividade”, que contrariando o fundamento do amor, tende a criar guetos e a valorizar apenas a homogeneidade).

Na Casa do Pai há muitas moradas-ser... Jesus tem-nos preparado lugar. Creiamos em Deus. Creiamos em seu amor. Prossigamos incluindo, cuidando para que os termos não acabem perdendo seu real significado. Prossigamos amando, cuidando para que não sejamos tentados a imaginar que “diversidade” é quando todos crerem, pensarem ou decidirem igual.

A Igreja da Inglaterra e a Igreja do Brasil, ambas unidas e co-irmanadas na Comunhão Anglicana, permanecerão pregando a diversidade e dentro dela o respeito que se deva ter pelas decisões de sua maioria. Enquanto eles entendem, por decisão de maioria, que este ainda não é o momento; nós permaneceremos profetizando o que cremos e proclamando o que já experimentamos: DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOA ALGUMA. 

Por que faríamos nós, IEAB?

Por que faríamos nós, anglicanos, amigos e aliados da diversidade?

Daí, por léxico, entendemos que não há como crer e não oferecer os caminhos para que o que se crê aconteça. Daí, por fé, não há que se falar acerca do amor de Deus criando barreiras ou impondo limitações ao entendimento. Fé, não nos esqueçamos, é sempre um salto para "além do que se vê!"

Aos que desejarem, os links abaixo ajudarão na melhor compreensão do que temos realizado:


O Verniz e a Madeira (artigo do Rev. Eduardo Calvani) publicado no blogue do Episcopaz e também no portal Palavra Aberta.


Nota oficial da IEAB sobre a decisão da Suprema Corte brasileira quanto às uniões homoafetivas (2011)

Por fim, a Parábola dos Talentos tem muito a nos ensinar sobre Unidade em meio à Diversidade. Jesus nos ensina no evangelho conforme São Mateus (cap. 25) que o Reino de Deus é semelhante à situação de alguém que confia a seus operários seus bens, distribuindo-lhes “segundo sua capacidade” (de administração dos bens/ de cuidado, sabedoria e inclusão dos temas cotidianos diante do avanço da sociedade). Cada qual recebe de uma forma. Houve diversidade de maneiras. O amor e o respeito de Deus foi igual para com todos, embora nem todos tenham recebido a mesma porção... embora nem todos estivessem aptos para discernir naquele momento a mesma coisa...

Assim é Deus para conosco.

Assim é Deus para com nossa maturidade e “capacidade” de lidar amorosamente com todos, sem exigir que todos “recebam a mesma quantidade de talentos”, isto é, sem que todos tenham que agir da mesma forma ou que apenas alguns possam se casar.

Deus sempre vai além porque Ele é o Todo Amor.

Nós, que somos peregrinos no chão desta terra, que ora acertamos, ora nos equivocamos rumo à "estatura de varão perfeito" ou "à medida da estatura completa de Cristo", parafraseando São Paulo aos Efésios, é que ainda estamos aprendendo com Ele a respeitar e a acolher a diversidade, bem como a crer, por meio da fé, que cada qual tem sua própria capacidade para entender que o Amor de Deus vai sempre muito além do que já cremos. Pela fé ousamos afirmar: ou você crê ou você não crê


Todavia, crendo ou não crendo, Deus continuará sendo Todo Amor... e a uns dará cinco talentos, a outros, dois; a outros, um, mas de todos requererá que multipliquem os talentos (e aqui ousamos ressignificar o texto conforme o espírito do Evangelho, de modo que seja a própria capacidade de ser Luzeiro, sem medo de "mudar o pensamento" [metanoia, isto é, "conversão"] em meio aos avanços dos temas cotidianos) e que ofereçam ao mundo muito mais do que receberam.


 
A todos aqueles e aquelas que desejam ofertar muito mais, a amar muito mais, a acolher muito mais, nossa gratidão e nosso convite para que juntos continuemos transformando nossa Igreja sendo mãos, pés e abraços de Jesus no meio de uma geração que "coa mosquito e engole camelo".

No abraço de inclusão e acolhida de Deus, por meio de seu Filho Jesus, o qual é o Cabeça da Igreja e nosso Modelo,


Ricardo Pinheiro
19/02/2014

15 de fevereiro de 2014

:: Refugiados no amor de Deus ::





Porque algumas coisas nos ecoam como reflexão sobre o amor de Deus que a todos nós incluiu...

Porque antes éramos como "ovelhas sem Pastor"... éramos como refugiados e separados.

E, pela Graça, fomos reconciliados por Seu Sangue...

Isto é, fomos refugiados em Seu Amor...

Ato unilateral. Não há nada que possamos fazer para "dar uma forcinha" pra Deus...

O nosso trabalho é descansar Nele... e crer... e ser... e amar.

Pensa que é fácil?

Experimente andar por fé!

Experimente amar quem é diferente de você!

Fácil é confiar em si mesmo... fácil é amar quem nos faz bem.

Mas os que esperam no Senhor, amam... e vão reproduzindo belos testemunhos como o de um samaritano que salvou um espancado, um acorrentado pelo poste, uma violentada, um atacado por homofóbicos, um humilhado por racismo, um preterido por ter ser pobre, um discriminado porque é ateu... e assim sai a semear...

O semeador saiu a semear...

É pra você pensar.

Aproveito e ilustro o mais que não disse com este vídeo (em inglês):





R. P.

15/02/2014

12 de fevereiro de 2014

:: Quando dois homens se casam… ::






No sábado passado fui a um casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Pensei em escrever um texto onde descreveria o casamento e só no final daria essa informação. Mas serei “legal” com você, leitor. Se quiser parar de ler por aqui, facilito a sua decisão, pois falarei sobre um casamento homoafetivo. Se seu preconceito não lhe permite avançar, esta é a hora de parar a leitura.

Voltando à narrativa, vamos ao casamento…

Fui convidado por um dos noivos, Bruno, primo de minha mulher… recebemos o convite com alegria, pois só o fato de ser convidado já nos era honroso. Sim, senti-me honrado de ser convidado para este evento.

Chegamos ao local da cerimônia/jantar, e a primeira alegria e surpresa foi ver a casa repleta de familiares dos noivos. Geralmente são os que mais recriminam e abandonam aqueles que assumem sua orientação afetiva e, as pesquisas apontam, são a causa de muitos suicídios entre estes. Não foi o caso! As famílias estavam todas lá, para alegria dos noivos, e para minha alegria também.

 
Havia também outros amigos homossexuais. Discretos, ocupavam suas mesas sem nenhum problema e sem olhares constrangedores. Vi um novo mundo possível! Um ambiente onde héteros e homoafetivos compartilham dos mesmos direitos, espaços e olhares. Todos amigáveis. Todos repletos de respeito mútuo.

Chegou a hora da “cerimônia”, e aqui a coisa tomou ares ainda mais admiráveis.

Pais, avós e amigos deram “testemunhos” sobre os noivos. Uma nota: a família de um dos noivos era de tradição cristã/protestante. E os testemunhos me emocionaram. Tocaram fundo.




Um dos pais disse: “Estes meninos são homens de verdade. Venceram preconceitos e assumiram, contra tudo e todos, seu amor e desejo de compartilharem a vida.”


Outro pai afirmou: “Meu filho me ensinou o que é amor. Só agora, depois de velho, estou aprendendo o que é amor, respeito, dignidade.”


Aliás, as palavras que mais ouvi, acerca dos noivos, foram “integridade”, “dignidade”, “respeito”, “amor”, “bons filhos” e “amigos”.

Mas, o grande momento, foi quando a avó de um dos noivos, cristã, fez uso da palavra para a “benção das alianças”. Afirmou, para espanto de qualquer resquício de homofobia ou estranheza que houvesse ali, que via a mão de Deus sobre a vida dos dois. Realçou o carinho e o amor que um nutem pelo outro, e que isso só pode vir de Deus. Mais uma vez falou da integridade do neto e o quanto sua família celebrava aquele momento.


Meus olhos marejaram… a Ellen (minha mulher) já estava aos prantos. Ao redor um clima de festa e celebração por um amor que se “oficializava”.

Sim, eu estava num casamento.

Não, eu não estava num casamento “gay”. Repito: eu estava num casamento! 



Ali estavam duas pessoas, dois seres humanos jurando amor, respeito e fidelidade um ao outro.

Ali estavam duas pessoas, dignas, honradas, projetando uma vida a dois.

Como posso eu condenar tal juramento? Como posso dizer que esse amor é pervertido?

Não posso! Não quero! Não o farei! Não tenho esse direito!




Meu desejo é que Bruno e Júlio sejam felizes. Minha oração é que o amor jurado seja vivido sempre! Minha torcida é que a vida deles, juntos, seja motivo de alegria para a família, amigos e quaisquer pessoas que os cerquem.

Que a integridade e a dignidade desse relacionamento sejam celebrados por todos aqueles que amam a vida e a dignidade humana.

Parabéns, Bruno e Júlio! Vocês quebraram preconceitos! Vocês enterraram, de uma vez por todas, os meus preconceitos pessoais! Vocês me ensinaram…

Sejam felizes!


José Barbosa Junior

Publicado originalmente no blogue Crer e Pensar




Nota da Pastoral: Gostaríamos muitíssimo de publicar imagens de casais homoafetivos brasileiros e episcopais anglicanos que tenham contraído matrimônio e sido abençoados em suas  paróquias. Por mais que respeitemos a dignidade de todas as pessoas, algumas alterações são fundamentais nos Cânones Gerais da Igreja, sobretudo após os avanços sociais e jurídicos dos últimos anos. Aguardaremos o Sínodo Extraordinário visando esta necessária atualização. Esperamos em breve poder oferecer inúmeras imagens diante do altar em nossas paróquias. Enquanto nossos Cânones aguardam a alteração necessária para o rito de bênção matrimonial aos casais de mesmo sexo, fica o registro que não descansaremos até sua atualização.
 


8 de fevereiro de 2014

:: Jesus e seu jeito teimoso de amar ::..



 


:: Uma parábola sobre o justiçamento de uma adúltera e a força do Evangelho, que não se fundamenta na moral - E para que não reproduzamos os ensinos legalistas ou moralistas dos fariseus ::


1ª Parte:

Os evangelhos não relataram, mas conta-se que depois que Jesus livrou a mulher adúltera de ser apedrejada, muitos de seus seguidores mais próximos murmuraram entre si:

"Defensor de pecadores, deve ser tão pecador quanto ela"

"Tá com pena da adúltera? Por que não leva ela pra casa?"

"Queria ver se fosse a esposa dele, se ele ia falar o que falou"

"Tinha que prender ela pelo pescoço com uma corda numa figueira e apedrejar, tirando um pedaço da orelha. Agora ela vai voltar a adulterar"

"Banalizou o adultério. Vai todo mundo agora fazer igual"

"Semana passada, os romanos queimaram uma menina e ninguém veio defendê-la. Agora, ficam defendendo uma adúltera. É o fim..."

2ª Parte:

Certa feita li, numa obra cristã, que o Gênesis do ministério de Jesus é tomar as “talhas que os judeus usavam para as purificações” e enchê-las de vinho!

Lido apressadamente não conseguimos perceber a profundidade do que o autor dessas palavras quis dizer. Ele fala do Evangelho e de como ele nos desmonta absolutamente qualquer ideia que carreguemos acerca de Deus. Na verdade, Deus vai muito além de nossa capacidade humana de pensa-Lo, de imaginar como Ele (nos) ama. Em suma, a proposta do Evangelho é que se deve começar outra vez a partir de contêineres que se deixem curtir no vinho novo, que de acordo com o apóstolo João, não é novo, mas aquele que desde o princípio tivemos!

Com isso, sou remetido a uma outra reflexão:

A Graça de Deus é livre, absurdamente livre, para desmontar qualquer tentativa de autojustificação diante do Deus de Amor, de fazer de obediências a ritos e preceitos o seu "aio", a sua "muleta", e é plenamente livre para levar a Graça do Cordeiro a quem quiser e como bem desejar.

Já parou para pensar no "escândalo" que é a liberdade de Deus?

Todavia, que ninguém faça disso a evidência de sua salvação. A salvação é conhecer e ser conhecidos por Deus, em Jesus. E mais: é produzir o fruto que dessa verdade de ser nasce agora naturalmente de modo sobrenatural.

Oremos ao Senhor:


Jesus, obrigado por teres feito o Caminho Largo o Suficiente para eu passar! E obrigado, porque na minha fraqueza teu poder se aperfeiçoou e, assim, tendo provado de todos os tempos, épocas e estações da vida, aqui estou para dizer, mais uma vez: ‘Para quem irei? Só Tu tens as Palavras da Vida Eterna!


Com a contribuição da amiga Cristiana Serra (Diversidade Católica), que nos apresentou um belo texto de seu amigo e historiador, Lair Amaro (cfr. reprodução na 1ª parte).

R. P.
MOVIMENTO EPISCOPAZ
08/02/2014

6 de fevereiro de 2014

:: Estudo bíblico: alguns mitos pagãos contados pelos crentes ::..




O 1º Mito Pagão


(Cristianismo sem Graça e sem Misericórdia é tão pagão quanto):


“Cuidado! Vocês não entendem nada! Quem despreza a Bíblia despreza a Deus!”


Como diria o personagem Willy Wonka de "A fantástica fábrica de chocolate", é o caso de dizermos para [os pagãos crentes] nos contar mais como desprezar Deus não cumprindo Mateus 22, 36-39 ao não respeitar, dentre tantas outras pessoas, os cidadãos homoafetivos e eleger pessoas que farão de tudo para impedir que os tais tenham garantidos seus direitos iguais a de qualquer cidadão, como casar ou ter aula sobre diversidade sexual nas escolas públicas, algo que os “cristãos” vêm impedindo no Congresso Nacional sem a menor desfaçatez...

Para quem não se lembra, o texto mencionado faz referência a uma pergunta provocativa feita por um representante da religiosidade que é pagã (porque não crê no amor de Deus, de fato e de verdade) a Jesus, que lhe responde com este "resumão" extraordinário e que muitos fingem desconhecer:

Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Evangelho de Jesus Cristo conforme São Mateus 22,37-39).

Enquanto você, que possa acusar esta Pastoral de propagar alguma coisa que não tenha fundamento no Evangelho de Jesus Cristo, o que não é fato, continua a nos contar mais sobre como desprezar Deus não O amando nem ao seu próximo como a si mesmo; antes, exigindo que seu próximo se torne um clone seu, de sua forma de crer, de sua orientação sexual, de seus gostos musicais, etc --- o que, mais uma vez, bate de frente com "o jeito humano" de Jesus ser Deus, conforme se provam nos muitos encontros com gente diferente Dele e que mesmo assim foi amada e bendita ---, a gente prossegue com mais um mito contado pelos pagãos crentes...
 

O 2º Mito Pagão


(Cristianismo sem Graça e sem Misericórdia é tão pagão quanto):


“Toda a lei bíblica está de pé e a Bíblia é a Verdade de todo cristão!”



“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Evangelho de Jesus Cristo conforme São João 14,6)



Pra gente começar a entender algumas coisas que podem trazer confusão, torna-se importante separar fatos e fatos. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos são conjuntos de testemunhos de gente que andou com Deus, a despeito de sua própria humanidade vacilante e imperfeita.

Deus, no entanto, sempre foi o mesmo... 

“De eternidade a eternidade Tu és Deus”, diz o salmista. É fato.



Assim, Deus não se tornou amor. Ele é amor.

Portanto, Deus sempre foi quem Ele é!

A sua manifestação aos homens, todavia, é que “cresceu” aos sentidos humanos no curso das eras, posto que embora houvesse aqueles que o conhecessem como Graça (e o V.T. está cheio de Graça), sendo justificados pela fé (Heb 11), a maioria da humanidade, e também do povo escolhido para levar o “testemunho” (Israel), não poderia discernir a Graça de Deus se não fosse encerrado na certeza do pecado, isto conforme Paulo aos Romanos e a epistola aos Hebreus.

O que ocorre é que a lei foi dada para avultar a culpa e o pecado.

Mas que ninguém confunda as coisas: a lei, no entanto, nunca jamais salvou quem quer que seja, tendo todos sido salvos exclusivamente pela fé, em qualquer tempo ou em qualquer era.

Na realidade no V.T. Deus não estava dizendo sobretudo quem Ele era, mas sim quem nós somos.

A revelação de Deus no período em que a Escritura foi composta deu-se através de um longo processo, e, quem não entende isso não compreende nada.

De fato, como disse Paulo, “tudo quanto outrora foi escrito, por nossa causa foi escrito, para que pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança”.

A leitura bíblica é fundamental quando ela é feita com esses olhos, do contrário, ela se torna algo supersticioso e mecânico. Aliás, o fato da leitura bíblica ter sido considerada “meio de graça”—juntamente com a eucaristia e o batismo — fez com que, para muitos, o livro-Bíblia fosse considerado um ente vivo e mágico, como se carregá-lo e lê-lo, em si mesmos, carregassem uma bênção inerente. Ora, na realidade não é assim. Isto porque as Escrituras podem ser examinadas, com toda acuidade e detalhamento, e, ainda assim, nada acontecer no coração de quem lê, posto que a Bíblia só se torna Palavra quando a leitura é feita a partir de Cristo, e quando o coração acompanha a revelação com fé.

Vale lembrar que os “antigos”— incluindo nisto os próprios apóstolos e uma quantidade enorme de “pais da igreja”— não tinham o “Livro” disponível para a “leitura devocional”, posto que não havia nem mesmo o livro disponível para que se fizesse tal “leitura inspirada”.


Do ponto de vista do acesso à Bíblia, nós, sem a menor dúvida, temos muito mais acesso a ela que aqueles que nos precederam antes de haver “impressão do texto bíblico”. No entanto, paradoxalmente, as grandes percepções da Palavra aconteceram antes de haver essa facilidade física de acesso ao livro. E na minha percepção isso aconteceu também porque não tendo acesso à materialidade do Livro, as pessoas se entregavam de modo mais místico e intuitivo à verdade da Palavra.

O que aconteceu é que se instituiu o Livro como algo quase mágico, e, assim, a leitura bíblica perdeu a sua força intuitiva e simples, ficando os leitores presos à culpa de abrir o livro e ler—e, muitas vezes, seguindo até mesmo um esquema de leitura—, como se não fazendo isso Deus não falasse com a pessoa.

Nesse processo de objetivação da relação com o Livro, foram desenvolvidos muitos métodos de “compreensão” da Escritura, os quais, nada mais são do que “condicionantes” e que impedem a liberdade interior para a meditação, a ruminação e a gestação da Palavra na alma.

Ora, o simples fato de se condicionar a Graça a um Livro já é algo pagão e pequeno, e que embota os demais sentidos do ser para manter-se aberto, conferindo coisas espirituais com coisas espirituais, e, também, crendo que o conteúdo real da Palavra que nos habita, está sempre disponível para ser excitado por toda e qualquer emulação que venha do Espírito da vida, da natureza, e por tudo quanto possa significar impressão divina no nosso ser.

A Graça é puro escândalo e gera insegurança para quem não anda pela fé.


Para se andar na Graça tem-se confiar. Sem confiança, a alma acaba por tentar se agarrar a alguma forma de materialidade, seja a Bíblia, como livro; seja a igreja, como lugar de Deus; seja a Lei, como garantia de se estar “agradando a Deus” por méritos próprios.

Na realidade a Graça é chocante, pois, apenas nos manda confiar no amor de Deus, e, por tal confiança, viver de modo pacificado, sabendo que tudo está feito em nosso favor.

Cristãos que vivem para defender a ferro e fogo a Bíblia ainda não conheceram Jesus mesmo!



Por isso não se vê Paulo, Pedro, João, Lucas e ninguém tentando provar Jesus em razão da Bíblia ser fidedigna!

Não! Fidedigno era o testemunho que eles davam...

Da Bíblia o que se pode dizer é que ela é fiel como Palavra apenas porque afirma que Jesus é Deus e eu sou dos pecadores o principal!

O mais é um diletantismo ao qual Jesus jamais teria tempo e animo para se dar...

Depois que o Evangelho entrou em mim a Bíblia passou a ser apenas “um” Testemunho, mas não “o” Testemunho; sim, pois em mim “o” Testemunho é o do Espírito!

Sim, o que se diz é que o testemunho de Jesus é todo o espírito da profecia; ou seja: da revelação na Bíblia.

O mais não passa de mera ilustração...

E que todos entendam, de uma vez por todas, a Bíblia serve a Jesus, não Jesus à Bíblia. Jesus é Deus, consubstancial com o Pai, conforme cremos. Nada nem ninguém pode subjuga-lo, muito menos a Bíblia...

Sigamos os testemunhos de fé que encontramos nas inspiradas passagens da Bíblia, mas reconheçamos que o Testemunho Fiel da Palavra está em Cristo, no seu jeito humano de lidar com as pessoas... Todo tipo de pessoa: rica, pobre, marginalizada, pagã, romana, política, religiosa, simples, iletrada, adúltera, imunda, de boa ou de má fama, estereotipada como o gadareno ou a “mulher do fluxo de sangue”, não importa... Jesus e seu Testemunho é a Totalidade da Revelação na Bíblia!

Aprendamos com Ele. Amemos o Senhor de todo o coração. Tornemo-nos como filhos e filhas que buscam alcançar a estatura de pessoas do bem e que tornam o mundo melhor com a prática dos ensinos conforme revelados no Testemunho de Jesus, o Cristo de Deus... o Cristo de todos os que O amam e aguardam a sua gloriosa volta!

Em Cristo, que é “a” Verdade que nos liberta de todo o mal e auto-engano,


Ricardo Pinheiro
06/02/2014

Inspirado no texto “Lendo a Bíblia com os olhos da Graça”, de Caio Fábio.

5 de fevereiro de 2014

“O agressor não vale o sofrimento”, diz homossexual agredido em SP




O biólogo Juliano Polidoro, de 26 anos, foi agredido por um rapaz enquanto passava pela Rua Augusta, no centro de São Paulo, no domingo (2/2/14)


EM DEPOIMENTO A NATHALIA TAVOLIERI
05/02/2014

Era domingo à noite. Estava em um barzinho com um amigo no centro de São Paulo, jogando conversa fora. Havia sido um fim de semana bastante agradável. Por volta das 22h30, me despedi e tomei o caminho de casa, que fica na Zona Sul da cidade. Na manhã seguinte, tinha de estar cedo no trabalho.
Mesmo com fones no ouvido, estava atento. Sabia que subir a Rua Augusta, em direção à Avenida Paulista, não era um caminho seguro. Meus pais, preocupados com o aumento dos casos de agressões contra gays na região, me orientavam a tomar cuidado. Mas como não era madrugada, e as ruas estavam bem movimentadas, acreditava que em pouco tempo estaria no metrô, a salvo. Em poucos minutos, eu perceberia que estava enganado.

Enquanto caminhava pela calçada, um homem alto, musculoso e de cabelos raspados me encarou. Rapidamente, me deu uma rasteira. Como estava atento, tropecei, mas não caí. Olhei pra trás e perguntei: "Por que você fez isso comigo? O que eu te fiz?". O rapaz estava extremamente exaltado, com ódio nos olhos. Um ódio gratuito. Respondeu-me com xingamentos infinitos. Só não me chamou de viado. Mas estava claro pra mim, e pra todos os espectadores da rua, que a motivação era minha orientação sexual. A escolha dele não foi aleatória.

Saí andando, a passos mais curtos. O homem me perseguiu e, a dez metros dali, me agrediu novamente. Foi um golpe pelas costas. Desta vez, caí com tudo no chão. Fiquei tonto. A pancada foi tão forte que não sei dizer se foi um chute, uma rasteira ou um empurrão. A queda me deixou com hematomas pelo corpo e com o braço quase deslocado - bem o lado direito, muito útil nessa fase de finalização da minha tese de mestrado.

Atrás de mim, duas pessoas que percorriam o mesmo trajeto acompanharam tudo. Quando caí no chão, eles me socorreram e me ajudaram. Muitos dos que estavam nas mesas dos barzinhos da rua só observaram o incidente, de longe.

Sei que não fui o primeiro homossexual a ser agredido por aquele rapaz. Ele não estava em uma mesa de bar, não estava olhando vitrines ou indo a lugar algum. Estava parado, encostado em uma parede, só observando quem passava por ali. Pra mim, ele procurava a próxima vítima.

Fiz um desabafo no Facebook sobre o ocorrido, que foi bastante compartilhado (foram mais de 1.200 compartilhamentos até a noite de terça, 4). Entre os comentários, contudo, havia os de gente dizendo que eu provocara a agressão, pois eu teria "cantado" o agressor. Sem comentários.

Tenho acompanhado pelo noticiário as ocorrências de agressões físicas a homossexuais. Os casos estão pipocando por aí. E agora sou mais um deles. Acredito que não são as agressões que estão mais recorrentes, mas que mais agredidos estão se manifestando. Antes, muitos tinham vergonha de se expor - não se assumiam para família, amigos e colegas de trabalho. Depois da morte do Bruno (Borges de Oliveira, morto no final de janeiro após ser agredido por um bando na região da Rua Frei Caneca),  outras vítimas do mesmo grupo foram a público denunciar agressões semelhantes. Mais gays estão se manifestando - o que é bom, um reflexo de todas as nossas outras conquistas.

Eu poderia ter voltado pra casa calado, humilhado, sem reação. Mas o agressor não vale esse sofrimento - ainda que a agressão tenha doído

Fui à delegacia e registrei o boletim de ocorrência. Mais do que uma resolução para meu caso, quero que esse tipo de violência não ocorra com mais ninguém e que a região volte a ser segura para os gays. Meus pais não querem que eu saia de casa. Mas a resposta tem que ser outra. O medo não pode parar a minha vida. Mais uma vez, o agressor não vale esse sofrimento.


Fonte: Revista Época

:: Amor que forma Família ::..


O Movimento Episcopaz - Anglicanos pró-diversidade & pela paz anuncia que, se eles verdadeiramente se amam, se produzem frutos dignos de seu amor, logo, formam família. 'Eles' aqui é mera retórica. Eles podem ser eles, mas também podem ser elas. 





"Ah, mas nem todas as formas de amor são válidas!". 

Quem és tu, ó homem, ó mulher, para sentenciar ou validar o amor? 

Somente Deus é. Somente Deus faz. Somente Deus é capaz.

Façamos nossa parte. Amemos, mas não de palavras.

Equipe @Episcopaz