10 de dezembro de 2014

:: Direitos Humanos na Comunhão Anglicana: uma Missão ligada à sua identidade


Diversos prêmios e condecorações em direitos humanos já foram recebidos por ativistas e clérigos da Comunhão Anglicana.

Este é o reconhecimento de uma Igreja que é intrinsecamente ligada aos Direitos Humanos, isto é, o de todos os humanos.

Quando falamos de Direitos Humanos não nos referimos a ativismo assistencial, mas a mudanças na própria política e na sociedade como um todo. Isto veio a ocorrer com a contribuição da influência do Anglicanismo em diversas nações, a começar na própria Europa e na América do Norte, mas também em diversas regiões africanas desde Sudão, África do Sul, Tanzânia, Zanzibar, bem como em outros continentes, como no Sri Lanka (Colombo), Índia, nas guerras no Iraque e no Egito, além de muitos outros rincões.

Falar de direitos humanos é muito mais que abraçar uma causa, mas efetivamente mover céus e terra para realizar algo de transformação. Por exemplo, no Haiti diversas campanhas foram levantadas para a recuperação daquela nação, após tragédias ligadas a terremotos. Durante os anos 80 diversas fundações foram criadas para envidar esforços na luta contra a AIDS. Pesquisas têm sido financiadas; famílias têm sido sustentadas.  

Diversas Províncias, em várias partes do mundo, têm assento junto aos Conselhos de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos ligados aos governos centrais ou federais (como no Canadá, na Austrália, nos EUA e na Inglaterra) e muitas organizações contra a fome foram criadas pela Igreja e estão em plena atuação pelo mundo inteiro, sobretudo nos países mais pobres. Só a Diocese Anglicana de Lebombo, em Moçambique, abriga mais de 200 crianças órfãs vitimadas pelo HIV ou cujos pais foram vítimas da doença. Na Suazilândia diversas dioceses anglicanas mantêm abrigos e orfanatos para crianças abandonadas por suas famílias. As freiras anglicanas do Convento de St. Margaret’s em Polwatte, Colombo, igualmente mantêm um orfanato para centenas de crianças abandonadas. A Igreja em Jerusalém, no Oriente Médio, mantêm a Escola Anglicana de São Vicente, exclusiva para crianças pobres e deficientes. Na Libéria a Missão Esperança atua com missionários que cuidam de diversos orfanatos e escolas primárias para as crianças abandonadas.

No campo dos direitos civis ligados aos LGBTs e outras minorias diversas entidades ligadas à Comunhão Anglicana atuam junto a governos locais, buscando mudanças não apenas nas legislações como também atuando junto a diversos comitês de cidadania, além de manter casas de apoio a vítimas de intolerância e abusos sexuais (como a Oasis House e a “Casa de Magdalena”, ambas nos EUA).

Comunidades e diversas dioceses em alguns países na América do Norte e na Europa têm se levantado em favor da justiça nos casos dos imigrantes, em tempos de acirrado preconceito contra os estrangeiros. Bispos episcopais já foram presos em São Francisco e em Nova York, recentemente, na defesa dos direitos dos imigrantes.

É possível dizer que a xenofobia de muitas sociedades tem encontrado um obstáculo cristão de respeito e de acolhimento a quem busca novos horizontes para seu destino. A diocese episcopal de Fort Worth, no Texas, tem um primoroso ministério diocesano de resgate da cidadania de imigrantes que atravessam as fronteiras do sudoeste norte-americano, oferecendo-lhes ajuda profissional, jurídica, moradia, alimentação e vestuário. A paróquia de São Tomé, em especial, tem atuado especificamente com crianças e adolescentes fugidos quase sempre da violência das gangues de El Salvador, Honduras e Guatemala. 


Em parceria com a paróquia católica romana do Sagrado Coração e com a Igreja Batista do Calvário, todas as linhas de fronteira com o México, os episcopais criaram centro de arrecadação de roupas e calçados (na imagem acima) e unidades móveis com chuveiros, refeitórios e consultórios médicos para os primeiros socorros. A parceria ecumênica contabilizou que desde outubro de 2013 até agora foram mais de 52.000 crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos desacompanhados que atravessaram a fronteira, correndo todos os riscos, e catalogados pelo multiministério cristão.

Rev. Mark Barwick, um sacerdote anglicano na Bélgica, atuante na ONG “Direitos Humanos Sem Fronteiras”(HRWF – Human Rights Without Frontiers, em inglês), clérigo associado na paróquia de Todos os Santos, Waterloo, sempre encontrou a necessidade de sua fé ser expressa através da justiça, da paz e da dignidade humana para todas as pessoas. 

"Uma fé que não está ligada a esses valores não é interessante para mim", disse ele. "São Tiago disse que a fé sem obras é morta. A fé sem compromisso verdadeiro com a dignidade da pessoa humana não é crível."
  
Diversas outras iniciativas no campo dos Direitos Humanos estão acontecendo neste momento em nossa Comunhão Anglicana em diversos países, graças a atuação da Igreja nas frentes contra a intolerância, a fome, a miséria, os abusos perpetrados por governos a cidadãos, refugiados ou imigrantes em condições de ilegalidade de seu status, etc.

Não há que se falar em Direitos Humanos sem levar em conta diversas realidades que são o fundamento do Chamado cristão em prol daqueles que sofrem, que estão famintos, desabrigados, à margem ou que desejam um mundo mais justo, igualitário e pacífico. A Igreja quando atua nessas áreas apenas exerce seu múnus apostólico de ser os braços, os olhos e o coração de Cristo agindo no mundo. É o que tem feito da Igreja Anglicana, ao longo de sua História, um exemplo (entre muitos outros) de Cristianismo em ação no chão da existência, transformando o mundo e anunciando que pessoas, todas elas, de todas as cores, raças, tribos, povos, etnias, sexo e orientações sexuais, são alvo do amor de Deus, que a todos criou para uma vida que coroe sua Criação com dignidade, saúde, alimentação, moradia, entre outros direitos fundamentais a qualquer pessoa.

Infelizmente, em nosso país, algumas correntes ideológicas ou fundamentalistas resolveram diminuir o valor dos Direitos Humanos como sendo “apenas” direitos voltados para o respeito e a dignidade de seres humanos sujeitos de crimes e delitos. A diminuição do valor se dá quando se ignora outras realidades não menos essenciais para a sobrevivência de povos e nações: o direito à propriedade, à liberdade de expressão, ao trabalho, à moradia, à saúde, à educação, à liberdade de pensamento, consciência e religião; entre outros. Mas também se diminui o valor dos Direitos Humanos quando se estigmatiza o seu conceito na perspectiva do que é insuportável reconhecer: são direitos dos humanos. O leque de abrangência dos Direitos Humanos está tão amplo e ao mesmo tempo cercado de respeito à dignidade humana que se torna impossível não considerá-lo reflexo da Mensagem do Evangelho. Valemos mais que as aves, assegura o Cristo!

Em tempos de recrudescimento do ódio e das diversas formas de intolerância em relação a quem seja, pense ou creia diferentemente da maioria, vale nos lembrar que o amor é o mais poderoso dos dons e que ele não se regozija com nenhuma forma de injustiça (mesmo quando alguns consideram justo repetir nos dias contemporâneos as leis de talião, matando quem mata, aleijando quem aleija, até que nada sobre, sequer a própria civilidade!). Vale nos lembrar também as palavras do arcebispo da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, ao se colocar no lugar do próximo e sentir a sua dor (pura manifestação de obediência ao Santo Evangelho!), mesmo que ela não seja naturalmente a sua própria dor: 

“Nós lutamos contra o apartheid porque estávamos sendo acusados de algo que não podíamos fazer nada a respeito. É o mesmo com a homossexualidade. A orientação é dada, não se trata de uma questão de escolha. Seria louco alguém escolher ser gay com a homofobia que temos nos dias atuais”.

Exemplos não nos faltam de amor e serviço na luta por um mundo melhor, mais pleno do amor de Deus, mais certo que a Graça nos chamou para sairmos da área de conforto e segurança para impactar as nações com o poder do amor de Cristo e de sua Justiça a todos os povos, a todas as gentes. Entretanto, sabemos que temos muitos desafios pela frente. Há muito o que ser realizado, a ser combatido e a ser desconstruído. Cristãos e, em particular, episcopais anglicanos brasileiros, precisamos acordar para as manobras que alguns setores conservadores articulam dentro do Poder Legislativo com o intuito de impedir que cidadãos de outros credos exerçam sua liberdade de crença para ter aulas de religião que lhes repeite o culto e a fé (como é o caso dos seguidores de religiões de matriz africana), obrigando-as ao ensino da bíblia, assim como manobras acontecem para impedir direitos aos cidadãos homoafetivos, deixando-os às margens de direitos que dizem ser apenas para heteroafetivos (o casamento e a própria definição de família, por exemplo). Não há como ser neutro e não estar do lado dos opressores, isto é, daqueles que não desejam coexistir ao lado de quem seja ou creia diferentemente.

A hora de oração, de ação e de Missão, no Poder do Espírito Santo!

Sejamos sal da terra, como nos comissionou Cristo, e temperemos a existência com a Graça divinal, convertendo as talhas imexíveis da religião em cálices ofertados para a necessidade dos nossos semelhantes. E não nos esqueçamos que em Jesus de Nazaré, a gente tem um Deus amigo de pecadores e de gente às margens dos direitos elementares. É por isso que a Graça não se vincula à moral dos humanos, mas em obediência amorosa a Deus. É por isso que o Evangelho insiste que a Lei do Amor é a resposta imediata para todo atentado às mínimas condições do existir. Dito de outra forma, a Lei do Amor é o melhor de todos os fundamentos para a vida! 

“Quem me ama, guarda os meus mandamentos; assim como eu amo o Pai e guardo os Seus mandamentos. E os mandamentos, são um: que vos amais uns aos outros, assim como eu vos amei.” 

R. P.
10/12/2014
No dia internacional dos Direitos Humanos
Movimento Episcopaz – Anglicanos Pró Diversidade e Pela Paz