21 de abril de 2015

:: O Evangelho, a religião, as telenovelas e sua função social na desconstrução dos tabus e preconceitos




O Evangelho é Jesus. Não é nem jamais foi qualquer coisa ou conjunto de coisas ou corpo de doutrinas que, separado de Jesus, deve ser visto por todos como “o Evangelho”.

O fato é que sempre e desde antes de qualquer criação ou construção lógica, Jesus é o Evangelho. Sendo assim, Jesus é o Evangelho em todas as Suas histórias, ações, visões, ensinos, interpretações da realidade e, sobretudo, Sua entrega voluntária, como Cordeiro; e, para além disso, Sua Ressurreição!

Se alguém não enxergar a vida com o olhar de Jesus ou com a qualidade de amor que Jesus demonstrou em Sua existência no tempo e no espaço, ou seja: na Sua Encarnação, não alcançará o que seja Evangelho. Ficará preso ao discurso gerado a partir dos “pontos de vistas” construídos, ensinados e perpetuados mediante bases metodológicas filosófico-religiosas.

E é justamente aí que não apenas nascem mas crescem e se robustecem as “imagens de Jesus” criadas conforme o olhar (o ponto de vista) de quem olha recusando a ter o mesmo olhar de Jesus (que é o Evangelho): o Jesus mantenendor do “status quo” do papel subalterno e dessacralizado da mulher, apoiado pela divisão do trabalho e assegurado pela violência conforme o padrão outorgado na construção da sociedade judaica e mantido pela romana (que influenciaram o cristianismo); o Jesus que legitimava o racismo e o “apartheid”, tanto e sobretudo nos sul dos EUA quanto na África do Sul; o Jesus xenófobo em diversas sociedades da Europa oriental, das regiões do Oriente Médio e de diversos países cristianizados na África; o Jesus homofóbico do mundo ocidental contemporâneo, entre muitas outras “imagens” construídas [por nós, apenas por nós] acerca de Jesus.

Religião tanto pode significar “religar” como “re-ler” o aspecto místico visando uma conexão com o divino. Do ponto de vista sociológico, como diz Pierre Sanchis na obra Sociologia da Religião (Ed. Vozes, 2011), tanto pode ser “um sistemas de ideias [mas] um sistema de forças”. Isto é, ultrapassa um mero conjunto ideológico pra se tornar ação e influência direta nas relações sociais.

As telenovelas fazem parte do conjunto da teledramaturgia brasileira, ao lado de minisséries, seriados, teleteatros e outras atrações. A comunidade acadêmica vai dizer que a telenovela como narrativa popular acentua seu caráter nacional como veículo de valores culturais brasileiros, o que ocorre tanto para dentro da sociedade como para fora do país.

Por outro lado, é  possível posicionar a telenovela enquanto espaço social de denúncia e de informação para todas as pessoas que estão afastadas do processo de cidadania do Estado e que, portanto, desconhecem certos tópicos que a novela traz à tona. Como exemplo, citamos a novela A Próxima Vítima (1995) escrita por Silvio de Abreu. O autor abordou a questão do preconceito de brancos contra negros e vice-versa. A intenção era discutir se, na verdade, o grande preconceito no Brasil era social, mais do que racial. Em outro exemplo, citamos a novela Vale Tudo (1988), escrita por Gilberto Braga, por seu caráter precursor na abordagem do alcoolismo, reconhecido por poucos como doença, na época.  

Algo, entretanto, é capaz de unir religião e telenovela: sua função social ou, como gostam alguns, sua utilidade pública.  

A dramaturgia, em especial a telenovela, passou a fazer sucesso a partir de sua proximidade ao cotidiano e à “linguagem comum” das pessoas de todas as classes. As narrativas vão sofrendo ao longo dos anos processos de modernização e de nacionalização, o que proporciona uma identificação com a possibilidade de conhecimento e de reconhecimento dos diferentes brasis que fazem parte da nossa fonte cultural.

Sim, temos diferentes brasis porque somos diversos, múltiplos, plurais. A tentativa homogeneizante do comportamento e das relações sociais por parte dos diversos grupos religiosos dentro do cristianismo (protestante e católico) é justamente o que não encontra sentido numa visão mais ampla de sociedade, dentro da qual cabe a realidade da existência para fora das redomas do olhar religioso. Há vida lá fora, ou seja, aqui dentro da sociedade. Há vida e há muitas cores também. As telenovelas apenas retratam isso através da expressão dramatúrgica.

Justamente por não compreender isso, preferindo sua “particular visão de liberdade”, que as igrejas tornaram-se, de uma forma geral, em celeiros na contraprodução do que chamam “valores morais” ou “valores cristãos”. Tais valores são fruto das diversas apresentações das imagens construídas de Jesus.

A questão é que para se entender que Jesus é o Evangelho e o Evangelho é Jesus, e não quaisquer “valores morais” ou “valores cristãos” criados pelos grupos dominantes no tecido social religioso, tem-se que admitir que Jesus não é a imagem que dele fazemos. Sim, Jesus não é o mantenedor patriarcal da sociedade romana e judaica, portanto, para Jesus “já não há mais homem ou mulher” no sentido de importância ou desimportância nos papeis sociais. Eles se completam, por isso, por exemplo, é grave assegurar que à mulher é dado um papel inferior nas relações sociais e até mesmo dentro das igrejas. Seremos cirurgicamente precisos no que queremos dizer: o altar e a presidência das relações sociais e religiosas também pertencem às mulheres!

Se Jesus é o Evangelho e o Evangelho é Jesus tem-se que olhar a vida com o mesmo tipo e qualidade de amor que Jesus demonstrou na sua Encarnação. A Igreja, como noiva ou esposa do Cristo, precisa olhar a vida com estes mesmos elementos de amor.

Todavia, ao longo dos anos, vê-se exatamente o contrário. A igreja está cada vez mais distante do olhar e da qualidade de amor que a Encarnação de Jesus tanto nos inspira (ou deveria inspirar!).

Neste sentido, não temos dúvida que a Igreja perde quando sua função social não se entrelaça ao apelo do Evangelho (que é Jesus) para acolher todas as pessoas e respeitar não apenas suas diferenças como, em sentido maior, sua própria dignidade.

A Igreja perde quando se torna arquétipo de tudo aquilo contra o qual Jesus (o Evangelho) ensinou por meio de seus gestos e atos os mais simples (sim, cada gesto e cada atitude era pregação do Evangelho!).  

Infelizmente, de uma forma geral, a Igreja tem se tornado tão distante do Evangelho que não é de admirar que o Evangelho (que é Jesus) esteja em plena atividade realizando seus propósitos eternos, conquistando corações e libertando consciências cativas das artimanhas de domínio humano com sua forma criativa de comunicar o amor de Deus por todas as pessoas em geografias que muitos de nós, particular e arrogantemente, asseguraríamos que não passam de desertos e cenários onde o Evangelho jamais se manifestaria.

Finalizamos com um cena pinçada nesta semana de uma telenovela que, sem pretensão maior para além de sua função social no enfrentamento de questões do cotidiano, lança reflexões profundas que só se explicam enquanto inspiração do Evangelho, sendo este a Fonte de todo o Bem, de toda a Defesa da dignidade humana e de tudo o que “religue” o ser humano à sua própria verdade e ela com Aquele que a criou. A cena em si é o retrato do que a religião pode fazer (e tem feito, cada vez mais!) quando decididamente abre mão da proposta escandalosamente misericordiosa de Jesus (o Evangelho) e escolhe produzir rupturas cada vez maiores entre pessoas e pessoas, conforme seu crivo de juízo moral acerca da imagem que produziu, por si mesma, acerca de um outro Jesus. O estrago é inevitável (que o digam o número alarmante de suicídios entre adolescentes gays em famílias conservadoras, os ataques homofóbicos em escala crescente nas cidades e no campo, o surgimento de forças políticas tentando homogeneizar um único padrão de família como lei, entre outros, majoritariamente inspirados por discursos religiosos).

Telenovela: Babilônia (2015)
Resumo da cena: Diálogo entre os jovens Rafael e Laís, quando esta recebe a informação que a família de seu namorado é formada por duas mulheres, Teresa e Estela. Depois de conhecer as mães do namorado, Laís entra em pânico ao se ver diante de uma situação que sempre acreditou ser pecado. E sua única saída é fugir. “Esquece que eu existo”, grita, deixando o namorado muito magoado. 


Ela (Laís): Você tá querendo me convencer a achar natural uma coisa que é pecado... A criação que minha família me deu... Eu penso igual a eles!

Ele (Rafael): Então, muda! Muda! Enxerga o mundo que tá na sua frente. Enxerga que as pessoas são diferentes de você. E isso é bom! 

Ela: Eu tenho nojo delas! Imagina... isso é repugnante! 

Ele: Você está coberta de razão, tudo mudou. Eu não faço ideia de quem é você, pessoa mesquinha, preconceituosa... desumana! Eu sou filho de minhas duas mães e tenho muito orgulho disso!


Imagens: Globo.com


R. P.
Movimento Episcopaz
Episcopais Anglicanos Pró Diversidade e Pela Paz
21/04/2015