26 de abril de 2014

Encontre aqui uma paróquia que te inclua pelo que você é ::..





INTRODUÇÃO:

A Rede Anglicana Pró Diversidade e Pela Paz nasce como resposta ao anseio de diversos paroquianos e muitas pessoas que nos procuram (em geral, por e-mails), de diversas cores, raças, regionalidades, nacionalidades, classes sociais e sobretudo orientações sexuais, que desejam conhecer, se envolver e fazer parte da história de compromisso com a luta em prol da dignidade de todas as pessoas que a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil sempre teve ao longo de sua existência. Estamos falando, portanto, de inclusão.

Em que pese a ideia disseminada que inclusão tem a ver com ambientes voltados para este ou aquele grupo de pessoas, nossa identidade cristã ressalta a importância da diversidade como manifestação do cuidado de Deus para com todas as pessoas. Portanto, inclusão para nós não é sinal de igreja negra, branca, rica, pobre, LGBT, etc. Isto é exclusivismo, ou seja, gueto. Não é a essência do “ser Igreja”. A Casa de Deus é Casa de Oração para todas as gentes e todos os povos, e não apenas de alguns. Ora, inclusão para nós nada tem a ver com inclusão conforme o senso comum de alguns grupos cristãos inclusivos que focam ou objetivam determinadas pessoas na dinâmica de seus cultos.

21 de abril de 2014

PNE e a “ideologia de gênero” ::..




Mais um motivo apareceu para atrasar a votação do Plano Nacional de Educação (PNE), o qual já deveria estar valendo para o decênio 2011-2020. Um dos projetos de lei mais polêmicos dos últimos anos, o PNE define as metas e as estratégias da educação brasileira para os próximos dez anos, orientando as políticas educacionais em todos os níveis. Primeiramente truncado por conta das disputas em torno dos 10% do PIB (leia aqui), agora é a vez de o gênero entrar nesse balaio de gato. Opositores querem, a todo custo, retirar a assim chamada “ideologia de gênero” dessa lei.

A rigor, o PNE fala pouco sobre gênero. Essa pequena palavra – que abriga um poderoso conceito – consta basicamente em uma frase do projeto de lei. No artigo 2º, voltado para a superação das desigualdades educacionais, há um destaque que acrescenta: “com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”. Pronto. Esta foi a deixa que o fanatismo religioso, personificado em figuras como Marco Feliciano (PSC-SP) e Marcos Rogério (PDT-RO), precisava para atrasar mais uma vez a votação do projeto.

Críticas de setores conservadores e fundamentalistas têm denunciado a tal “ideologia de gênero”, defendida pelo PNE quando este assume um compromisso com a “igualdade”. Esses grupos temem pela “destruição da família”, os “valores e morais” alicerçados na “lei natural” e, evidentemente, o avanço das pautas LGBT, dentre as quais a diversidade sexual, a criminalização da homofobia e o progresso em torno da despatologização do segmento trans* – pontos, na verdade, que transcendem a escola.

Aqui, voltamos à velha discussão que já vem sendo encampada neste país há décadas. Como cidadãos e cidadãs, temos a infelicidade de ver no poder uma corja de políticos absolutamente descomprometidos com a igualdade, a tolerância, o respeito à diferença e, pasmem, à própria racionalidade. O obscurantismo tem sido defendido à luz do dia, e as imagens que vemos de jovens empunhando cartazes contra a “ideologia de gênero” e, pior ainda, reforçando a violência que é uma definição única e imposta de mulher, homem, família, moral etc, é de chocar.


Ignora-se que a igualdade de gênero é tão legítima, necessária e importante quanto à igualdade racial ou regional. Trata-se, pois, de discutir a sub-representação política das mulheres, as desigualdades no mercado de trabalho, a assustadora violência nas ruas e domicílios, a objetificação sexual na mídia, entre outras. Acima de tudo, a igualdade de gênero deve ser um valor democrático, tão legítimo quanto à liberdade religiosa que, diga-se passagem, nunca foi posta em xeque por nenhum setor progressista neste país. Até porque os mesmos grupos que defendem a igualdade de gênero são aqueles que apoiam o Estado laico – a instituição mais democrática no tocante à liberdade religiosa em uma nação multicultural.

Nesse sentido, gênero é temido porque, de fato, é um instrumento valoroso. Longe de ser um conceito puramente acadêmico, gênero já se incorporou no jargão popular, nos movimentos sociais e nas políticas públicas. Essa rejeição à ideia de gênero reflete um sintoma de uma ordem social que está se sentindo ameaçada – a título de exemplo, casos similares aconteceram na França (leia aqui). Dessa forma, procuram criminalizar não só os indivíduos ditos “diferentes”, como também seus termos, expressões e conceitos que dão voz a essas “diferenças”. Gênero é um deles, mas não o único.


Como já reiteramos inúmeras vezes neste blog, gênero é um artifício teórico, criado na segunda metade do século passado, para designar as construções sociais sobre o masculino e o feminino. Em pouco tempo, o conceito de gênero foi apropriado pelo movimento feminista e se transformou em uma importante ferramenta analítica e política, com a finalidade de desnaturalizar as opressões de gênero, descontruir verdades absolutas e imutáveis sobre mulheres e homens, derrubar as falsas fronteiras que nos demarcam em estereótipos cruéis para os quais somos levados a acreditar desde pequenos, separando-nos em pequenas caixinhas que limitam nossas individualidades, potencialidades e perspectivas.

Portanto, gênero não é uma ideologia. É, ao contrário, a desconstrução de uma ideologia que imputa à natureza, à biologia e supostamente a características inatas dos indivíduos, a carga pesada e histórica de desigualdades entre homens e mulheres, cis ou trans. Os movimentos sociais continuarão a insistir nesse ponto, até que cada resquício de obscurantismo de cunho fundamentalista seja derrubado e possamos, por fim, aprovar um PNE que reflita não só os interesses de uma educação pública de qualidade, como também de uma sociedade que pretende se livrar de desigualdades, violências e opressões – de gênero ou de qualquer outra origem.


Fonte: http://ensaiosdegenero.wordpress.com/2014/04/12/pne-e-a-ideologia-de-genero

20 de abril de 2014

Perguntas mais frequentes sobre nossa Rede ::..






1) Qual o principal objetivo da Rede Anglicana Pró Diversidade e Pela Paz? 

O principal deles é unir esforços e trocar experiências entre as diversas comunidades anglicanas, ligadas à IEAB (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil), no tocante ao combate a toda forma de intolerância ou preconceito e aos esforços pastorais em prol da inclusão de todas as pessoas na Igreja. O segundo, semelhante a esse, é deixar claro para aqueles e aquelas que se aproximam (ou estejam querendo se aproximar) quais os ambientes onde se poderá servir a Deus e à própria comunidade com os dons oferecidos pelo Senhor sem ser discriminado ou meramente 'tolerado' desde que permaneça em silêncio ou "sem muitas evidências" do que seja diante de Deus. Em outras palavras: identificar claramente as comunidades onde haja indispensável manifestação dos dons de acolhimento, respeito e serviço para todas as pessoas, não importam as adjetivações que o mundo (os que não conhecem a Deus) tenha dado. A Rede quer ser apenas uma ferramenta, em meio a tantas outras, que venha facilitar a identificação no cumprimento do Santo Evangelho: "a minha Casa será chamada Casa de Oração para todas as gentes!". Todas são todas as gentes, mesmo!

2) Esta Rede nasce como desejo do clero ou é alguma coisa ligada a uma paróquia em especial?

Nossa Rede Anglicana pró-diversidade e pela paz é um movimento de leigos, de várias comunidades (sejam elas paróquias, missões, pontos missionários, capelas, etc), que conta com o carinho e as orações de clérigos também, todos num só e mesmo espírito na concretização daquilo que nos é caro: respeitar a dignidade de todas as pessoas. É o que afirmamos, solenemente, todas as vezes que renovamos nossos votos batismais, conforme nos orienta o Livro de Oração Comum de nossa Igreja.

3) O que vocês entendem como “prometer respeitar a dignidade de todas as pessoas”?

Prometer respeitar a dignidade é fomentar um ambiente (a começar dentro do próprio coração) facilitador para reconhecer no próximo, independentemente de adjetivação ou rótulo, que ele merece gozar os mesmos direitos que eu. Como promessa ou voto, vale aqui a orientação bíblica contida no livro de Eclesiastes:

“Melhor é que não votes do que votes e não cumpras”(Ec 5,5)

Em outros termos, é melhor não renovar solenemente a aliança dos votos batismais ou buscar renovar omitindo a promessa de que defenderás a dignidade de todas as pessoas do que, solenemente, prometeres e não moveres um dedo para defender a dignidade de teus SEMELHANTES. Obviamente, omitir a parte mais "evangélica" (na essência do Evangelho) de nossos votos não é o papel de um anglicano quanto menos ainda de um cristão, aprendiz de Jesus dos Excluídos e Marginalizados de Nazaré.

É justamente porque somos tomados por uma nova consciência em Cristo de que “já não há mais judeu ou grego... pois todos somos um no Senhor” que as adjetivações que possam nos desnivelar em grau de importância diante de Deus se desmancham. Somos iguais. Temos os mesmos direitos justamente porque fomos alvos de um só Sacrifício Perfeito realizado por um só Senhor, uma única vez, para sempre, na Cruz.

4 Todos já alcançaram essa nova consciência em Cristo? 

Não, infelizmente. No entanto, cabe-nos o anúncio pelo testemunho de nossas ações em prol da inclusão de todas as pessoas. É justamente isso que a Rede deseja realizar, irmanada com outras comunidades anglicanas ligadas à nossa Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).

5) E o que mais vocês pretendem?

Além disso, nosso desejo é cooperar para ajudar a todos aqueles que nos procuram buscando uma comunidade na qual possam se envolver, crescer em Graça e desenvolver seus dons e talentos para a glória de Deus, sem ser importunados por serem quem são, na verdade de seu próprio ser. Todas as comunidades serão divulgadas, bem como seus endereços, nome do pároco, e-mail de contato, site na internet, etc. A identificação dessas comunidades como "abertas à inclusão" será de vital importância para todos estes que nos procuram. Por isso mesmo, cada comunidade receberá um banner personalizado com o selo de nossa Rede.

6) A proposta então é permanecer nessa extraoficialidade ou futuramente pensam em algo mais "oficial"? Há algum risco de o objetivo principal ser desvirtuado e o nome de minha comunidade acabar, de alguma firma, conectado a anseios que não nos correspondem enquanto igreja?

Por enquanto caminhamos na extraoficialidade, até porque ainda estamos na fase de implantação com a adesão das comunidades parceiras em prol da "causa da inclusão" na IEAB. Num universo macro, somos menos de 10% das paróquias, ou seja, um nº muito pequeno e que explica o porquê de precisarmos nos firmar por um bom tempo. Os objetivos são todos os que encontram-se descritos aqui, sem aumentar nenhum deles. Futuramente, nossa intenção é dar "corpo", é documentar a Rede e apresentar num nível mais provincial com o compromisso dos signatários em prol da proclamação do Evangelho sem reservas a todas as pessoas, respeitando o que o Livro de Oração Comum já nos ensina no tocante ao respeito e à defesa da dignidade de todas as pessoas. Assim será o documento formal que dará "corpo" ao que futuramente, querendo Deus, poderá vir a ser algo mais oficial. Neste momento, somos apenas um grupo de comunidades irmanadas buscando trocar experiências e facilitar o mapeamento dos locais para onde vidas desejam servir ao lado de muitas outras. Nada além disso.


7) E quanto àquelas comunidades anglicanas mais conservadoras que ainda não se sentem confortáveis em incluir essas pessoas, por algumas razão?

Se, por exemplo, no contexto da diversidade sexual, uma comunidade apenas tolera a presença de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais em seus ambientes porém negando-lhes com isso o direito de serem canais de bênção no meio do povo de Deus (tal como seus irmãos heteroafetivos),  não há como fazer parte da Rede em prol da diversidade. É preciso ir além e se comprometer como lugar seguro, Casa de Oração para todos os povos e todas as gentes (sem exceção), buscando se identificar com a subversão que o Santo Evangelho promove dentro e fora de nós, justamente porque não se alicerça sobre leis ou a moral dos homens, mas apenas sobre o Poder de Deus. Evangelho que é Evangelho nasce em Deus e para Deus retorna sem qualquer tipo de alicerce humano. É totalmente de Deus; nós, apenas cooperadores de Cristo no anúncio que realizamos em nossas vidas, por nossas ações.
 
8) Vocês da Rede são a favor do matrimônio igualitário na IEAB?

Sim. Buscamos promover uma nova consciência em Cristo no sentido de proclamar que todas as pessoas merecem ser acolhidas e amadas, bem como merecem acolher e amar. Igualmente, também buscamos por todos os meios legítimos, canônicos e com os inúmeros recursos teológicos, instruir a comunidade no respeito a dignidade de todas as pessoas, o que vale dizer também de seus direitos. O direito ao santo matrimônio, sob a bênção de Deus, é um desses direitos que qualquer casal anglicano merece ter. Evidentemente, no caso do matrimônio igualitário, sabemos que a voz dos leigos em nossa Rede precisa ecoar nas Comissões de nossa Província que venham examinar a matéria. A própria existência da Rede, sem dúvida alguma, já será um sinal a ecoar em muitos corações.  


9) Há algum compromisso que as comunidades parceiras nesta Rede precisam se empenhar? Qual seria?

Listamos estes cinco pontos fundamentais para poder se engajar em nossa Rede:

I - Amar sem impor condições; 

II - Reconhecer que, pela Graça, somos todos alvo de um “favor imerecido”;

III - Discernir que o meu pecado não é menor ou maior que o do meu próximo;

IV - Saber que, se há lugar para mim, há lugar para meu próximo também;

V - Defender, como fruto da Graça que nos nivela todos, a dignidade de meu próximo.



10) Como se faz para incluir uma comunidade anglicana nesta Rede?

Fácil. Basta-nos enviar um e-mail para anglicanosdobrasil@gmail.com ou nos enviar mensagem inbox pela página do Movimento Episcopaz nas redes sociais (facebook ou twitter).


SAIBA POR QUE E COMO PARTICIPAR ACESSANDO (TAMBÉM) ESTE LINK:

http://episcopaz.blogspot.com.br/2014/04/uma-rede-de-parceiros-em-prol-da.html





19 de abril de 2014

:: Uma Rede de parceiros em prol da diversidade


Church Outting ::



Não importa como tem sido tua caminhada, o importante é saber que há um Caminho, que também é Vida e Verdade, o qual tem Nome, que está sobre todo o nome: Jesus. Ele te estende a mão e te diz: 

Seja bem-vindo(a) tal como você é. 

Nós, filhos do Deus de amor, não teríamos outra atitude. Sejam bem-vindos entre nós e adorem a Deus em espírito e na verdade do ser de vocês, pois são gente assim que o Pai procura para seus verdadeiros adoradores!



Por que participar? Para nos irmanar, ainda mais, buscando ajudar aqueles e aquelas que desejam conhecer nossa Igreja mas, algumas vezes, sentem-se confusos ou até desconfortáveis por não saber onde encontrar uma comunidade mais próxima (de casa, do trabalho) que não venha discriminá-los, a si mesmos ou a seus companheiros e companheiras; sendo, antes, um lugar genuinamente seguro para crescer em Graça e no conhecimento de Nosso Senhor Jesus. A Rede vem facilitar as coisas, mas principalmente a vida de quem deseja se aproximar de nossa caminhada paroquial como igreja. As comunidades da Rede são a certeza, para tais irmãos e irmãs, que ainda há lugares buscando ser "Igreja", falando do amor incondicional de Deus, glorificando sua misericórdia, buscando ser discreta e prática nas suas obras de amor; de ser o mais livre possível dos poderes constituídos deste mundo; de ser uma comunidade de amor, livre da homofobia e das atitudes de intolerância (ou "mera tolerância"); que se reúne para compartilhar a Palavra, orar, adorar e ajudar-se mutuamente enquanto vive o testemunho do Evangelho em serviço de amor no mundo.

A tua comunidade não precisa oferecer uma pastoral da diversidade ou ligada a direitos humanos para participar de nossa Rede; basta comprometer-se com o respeito à dignidade de todo ser humano, conforme nos determina a renovação dos votos batismais contidos em nosso Livro de Oração Comum e ser uma comunidade facilitadora da presença e da ativa participação de todas as pessoas na construção de um mundo mais justo e igualitário, longe da homofobia e de todas as formas de opressão.

Uma comunidade (paróquia, missão, ponto missionário, etc) que se identifique com nossa Rede é, em suma, uma comunidade em prol da inclusão de todas as pessoas que desejam ser incluídas no seio da Igreja. Isto equivale dizer, é um ambiente de adoração comunitária com as portas abertas para nacionais e estrangeiros; ricos e pobres; letrados e iletrados; negros, brancos, pardos, indígenas e orientais; hetero, gays, lésbicas, bissexuais e transexuais; homens e mulheres de todas as idades e origens. Recebê-los em amor é o primeiro passo; facilitar e incentivar sua participação na dinâmica da vida da comunidade, sem negar-lhes acesso ao exercício de seus dons e talentos a serviço do Reino, é o desdobramento natural. As comunidades da Rede preservam isso com alegria para seu Chamado e sua Missão no mundo. 
 
Se tua comunidade/paróquia/missão/ponto missionário tem interesse de participar de nossa Rede em prol da diversidade e da paz, oferecendo um lugar seguro para crescer em Graça diante de Deus e de todas as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação, una-se a nós e envie-nos um e-mail dizendo “minha comunidade também quer fazer parte desta Rede”.Queremos mostrar a todos e a todas que nos procuram, de forma bem nítida, sem qualquer chance de equívoco, os ambientes cristãos que abrem as portas e os corações para incluir todos e todas que se achegam com boas intenções, sem exceção!

Nosso e-mail: anglicanosdobrasil@gmail.com
 

Prazo final para solicitar sua adesão à Rede de comunidades anglicanas (IEAB) em prol da diversidade: até 31 de maio, no dia em que a Igreja cristã ocidental (romana e anglicana) celebra a Visitação da Bem-Aventurada Virgem Maria.

Perguntas mais frequentes sobre nossa Rede Anglicana, acesse:

http://episcopaz.blogspot.com.br/2014/04/perguntas-mais-frequentes-sobre-nossa.html

 
Em breve todas as comunidades parceiras de nossa Rede serão listadas e seus endereços divulgados. Isto facilitará --- e muito --- a vida de quem está em qualquer canto de nosso imenso país buscando um lugar para servir em amor e ser "em espirito e na verdade do ser". 


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16 de abril de 2014

Uma palavra sobre as declarações do Arcebispo de Cantuária ::..



 Bispo Marc Andrus, diocese episcopal da Califórnia

O Arcebispo de Cantuária fez declarações públicas [1] que revelam, na melhor das hipóteses, uma  ingenuidade lamentável e, na pior delas, tanto uma homofobia quanto um  pensamento colonial. O Arcebispo Justin Welby afirmou que a Igreja da Inglaterra — se ela casa pessoas gays e lésbicas na Inglaterra — é a responsável pelas mortes de homossexuais na África.

O 105º Arcebispo de Cantuária e líder espiritual da Comunhão Anglicana
Revmº Justin Welby

O Arcebispo chegou a mencionar uma vala de cristãos de uma aldeia na África, assassinados, conforme ele foi informado, só porque os vizinhos não queriam se tornar gays pela associação com pessoas cuja religião apoiou os direitos para os LGBTs. É claro que o Arcebispo ficou chocado com a brutalidade por trás deste assassinato em massa e com a própria escalada de matança. Também me senti assim por isso. Em face de tragédias maiores que um ser humano pode ser acometido, acho que muitas vezes vamos para respostas e soluções que nós sabemos, que são familiares. Aqui, particularmente, penso  que o Arcebispo caiu em uma solução que já era injusta, mas familiar para ele: recuar em torno do casamento apenas entre um homem e uma mulher. Uma espécie de não inflame ainda mais pessoas violentas.

O argumento de Dom Welby é paralelo a ter dito que as leis de segregação nos Estados Unidos que se mantiveram até meados dos anos 60 e a privação do papel das mulheres em vários setores nos Estados Unidos até o século XX deveriam ter continuado se alguém alegasse que negros e mulheres em outros países poderiam ser ameaçados por movimentos civis de luta por justiça daqui.

Em um mundo muito simples, com poucas variáveis, talvez pudéssemos dar crédito ao  raciocínio presente nas palavras do Arcebispo Welby. Se o único fator na segurança dos negros LGBTs fosse a manutenção de leis injustas na Inglaterra e nos Estados Unidos, esperaria que todos nós fizéssemos uma pausa para absorver isso e ver o que poderia ser feito. Mas nosso mundo é um lugar extremamente complexo e a lógica simplista do Arcebispo privilegia apenas a posição de poder colonial da Grã-Bretanha, uma vez realizada em relação ao seu então desmantelado império — os africanos devem então prestar muita atenção a tudo o que o centro do Império pensa e faz.

Ao invés disso, a África é um continente de países, cada um com sua própria história em separado, que nada têm a ver com seus antigos mestres do império europeu. Certamente existem pelo menos diversos fatores em curso na África que influenciam a segurança dos LGBTs (e dos cristãos em geral, como Welby argumenta) que se contrabalançam ao foco que africanos possam ter pela Inglaterra.

O Arcebispo poderia ser prestativamente envolvido na África em nome da segurança de pessoas LGBT vulneráveis e até por meios que não perpetuassem a opressão do povo LGBT no Reino Unido, se ele realmente quisesse. Ele poderia apoiar o Ministério do bispo jubilado Christopher Senyonjo, em Uganda, uma voz corajosa e quase solitária na liderança religiosa daquele país [em favor dos LGBTs]. O Arcebispo Welby também poderia falar claramente com as Igrejas Anglicanas no Quênia, em Uganda, na Nigéria, entre outras naquele continente, sobre o amplo apoio que elas dão à legislação que criminaliza o ser das pessoas LGBT.

Se eu estiver certo nas minhas ponderações sobre as declarações do Arcebispo, conforme ele propôs — continuando, dessa forma, a oprimir o povo LGBT no Reino Unido — falhará proteger os africanos por esta razão: 
se a África está observando o Reino Unido tão perto como o Arcebispo tenta nos fazer acreditar, então eles, os africanos, não vão esquecer que o líder espiritual da Comunhão Anglicana está do lado da manutenção da segunda categoria aos cidadãos LGBTs.

Por duas vezes no longo programa de participação por telefone em que o Arcebispo fez suas observações, Welby usou o termo "incrivelmente" para descrever como a Igreja deve tratar o testemunho da comunidade LGBT — ouçam incrivelmente com muito cuidado e sejam incrivelmente conscientes. Para lembrar de uma grande fala do filme “A Princesa Prometida”, não tenho certeza se o Arcebispo sabe que uma incrível atenção significa.

Devemos nos lembrar que o Arcebispo deu uma clara opinião pessoal sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em um discurso para a Câmara dos Lordes reiterou, como ele fez na entrevista de rádio recentemente, que o casamento é uma instituição sagrada reservada para heterossexuais. Na verdade, nesta entrevista mais recente o jornal britânico Guardian escreveu que o Arcebispo não queria que as pessoas LGBT fossem tratadas com  maior severidade do que heterossexuais adúlteros são tratados. A ideia central aqui, se alguém se importa de ver de perto o que ele quis dizer, é que relacionamentos do mesmo sexo são pecaminosos.

Hoje, os meios de comunicação na diocese em que sirvo mostraram um dos meus sacerdotes — um homem gay, devidamente casado — sendo levado por policiais por conta de um ato de desobediência civil em nome dos imigrantes que se encontram em risco de deportação. Tais atos ao lado da justiça são, estou feliz em poder dizer, comuns nesta diocese... e são realizados o tempo todo por pessoas gays e hétero. Corajosamente fieis, ao invés de pecaminosos, parece ser um termo melhor para descrever esse padre episcopal e muitos como ele aqui.

O Arcebispo Welby afirma que o casamento deve ser apenas entre um homem e uma mulher, e diz que as Escrituras apoiam sua posição. Eu sinceramente esperava muito mais para um leitor das Escrituras como líder espiritual de nossa Igreja. Deixe-me apontar esta passagem do Evangelho para este domingo: a ressurreição de Lázaro dentre os mortos, conforme o Evangelho de São João, mostra-nos um bom lugar para buscar orientação sobre a questão que envolve a segurança de todos os cristãos, sejam hetero ou LGBT, tanto na África como também em outros lugares.

Bispo Marc Andrus realizando matrimônio igualitário na Paróquia da Trindade (Nova York)

Jesus se encontra tão profundamente comovido — pela morte de seu amigo, pela opressão do seu povo, com o sofrimento do mundo — que ele arrisca tudo para ir para a caverna onde Lázaro estava enterrado com o fim de traze-lo de volta à vida. Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: “Vamos também nós, para morrermos com ele” (Jo 11,16). Para levantar Lázaro da morte Jesus teve que ir direto para as águas políticas turbulentas dentro e ao redor de Jerusalém, onde sua vida corria perigo, e onde ele viria a ser rapidamente traído, torturado e morto.

Esta coragem e compaixão devem ser meu guia, e eu sugiro que seja também o guia como nos identificamos com Cristo, como cristãos. 

Existem outras passagens das Escrituras que podem apontar como visualizar a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A ressurreição de Lázaro dos mortos nos dá orientações sobre como devemos agir quando confrontarmos injustiça, maldade e pecado.


+MHA



Revmº Marc Handley Andrus é o bispo da Diocese Episcopal da Califórnia

Título original em inglês: “A word on the Archbishop of Canterbury's statements”


Artigo publicado em 05 de abril de 2014



Tradução: Ricardo Pinheiro

Imagens: Getty Images e Flickr


NOTA:
[1]  As declarações do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby [vejam este link: http://migre.me/iOc1O], líder da Comunhão Anglicana, repercutiram em todo o mundo, acirrando antigos debates entre conservadores e liberais. Nossa pastoral, recentemente, publicou um editorial sobre um desses artigos acirrados que acabou gerando controvérsia sobre o caminhar seguro dos episcopais anglicanos no Brasil (e em diversas partes do mundo) quanto à plena inclusão de todas as pessoas na dinâmica da vida da Igreja. Sugerimos ao leitor a consulta ao nosso editorial neste blog com o título "Quando todos os tipos de fundamentalismo não nos representam". Confiram pelo link: http://migre.me/iOcdU

14 de abril de 2014

: Quando todos os tipos de fundamentalismo não nos representam ::..



Vamos entender um assunto que gerou polêmica em algumas redes sociais quando o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, líder simbólico (guarde bem esta palavra) da Comunhão Anglicana resolveu falar sobre a delicada posição das lideranças de alguns países africanos onde o anglicanismo é bastante forte. A matéria acabou parando em algumas reportagens de blogues sensacionalistas a favor da chamada gay agenda como a que foi veiculada pelo America Blog


Saber que o Arcebispo de Cantuária representa a Comunhão Anglicana (preste atenção que aqui não falamos “Igreja”) é importante, pois evita o caro leitor de incorrer no risco quase comum de “vaticanizar” a Igreja Anglicana. Estamos querendo “justificar” falas de pessoas? Não; antes, buscamos apenas colocar os pingos nos is e impedir que uma reportagem com sombras de um espírito muito semelhante aos dos mais insensatos fundamentalistas (só que às avessas) queira forçar uma situação que não corresponde ao pensamento de milhares de anglicanos e centenas de lideranças independentes (guarde bem esta palavra também) em todo o mundo.

Não faz muito tempo, naquele período de hospitalidade ao Papa Francisco em nossa querida terra brasilis, quando viajava de volta ao Vaticano, uma das declarações mais fortes (se não a mais forte de todo o seu pontificado) foi ecoada pela imprensa mundial: “quem sou eu para julgar os gays?”. Óbvio que todos os comprometidos com os direitos humanos gostamos e aplaudimos este belo momento de sensível humanidade e lucidez diante da diversidade da vida. De repente, os latinos mais entusiasmados e defensores de uma linha mais progressista se emocionaram não apenas com as palavras (pois, de fato, elas nos emocionaram a todos), mas sobretudo com a possibilidade de “mudança” (entre aspas é fundamental para se entender os mecanismos da coisa frente à complexidade e à coesão magisterial da chamada Doutrina Moral dentro da Igreja Latina). Quem não gostaria de ver a Igreja de Roma se abrindo a um entendimento contemporâneo acerca do valor do acolhimento, de fato, de todos os seus milhões de fieis homoafetivos? Falamos de “acolhimento de fato” porque, a grosso modo, o Catecismo da Igreja Latina não exclui seus fieis homoafetivos, até aponta que deverão ser recebidos e cuidados para, logo a seguir, nos parágrafos seguintes, pontuar que são passíveis de um desajuste moral. 

A bem da verdade, o papel da Romanis Mater Eclesiae não é julgar ou condenar, mas acolher "com respeito, compaixão e delicadeza" seus filhos sujeitos do que eles consideram "atos desordenados" [Catecismo, § 2357] ou lá o que queiram dizer com isso. A mim não me pareceu nenhuma referência boa ou positiva, no final das contas, mas prossigamos. Até aí nada é essencialmente novo na dinâmica de um catecismo que espelha o modus operandi de Roma, o que, semanas depois, foi pastoralmente reforçado com declarações emitidas pela Congregação para a Doutrina da Fé. Houve um rebuliço nos setores mais conservadores da Igreja tentando jogar panos quentes no frisson da mídia mundial. Uma espécie de “parem de distorcer o que o Santo Padre falou”. Não estou querendo diminuir o peso de importância daquela declaração genuinamente cristã (ao estilo 'quem somos nós para usurpar o lugar de Deus, o único Juiz dos corações?'). Mas você há de convir comigo que, no final das contas, nada há de novo em termos de abertura no entendimento da questão, por mais que a declaração do Papa tenha trazido esperança para muita gente que sonha com uma mudança na doutrina --- o que nunca aconteceu em nenhum papado até hoje! --- de tal modo que venha abrir, aos pouquinhos, as portas para a aceitação de todas as pessoas em todos os cargos da Igreja. Rezamos com nossos irmãos para que isso aconteça, mas certamente não será nesta nem na próxima geração que veremos este virar de páginas na História.

Não é preciso ir muito longe para se esquecer as tensões entre Igreja versus Estado argentino quando o então cardeal Bergoglio, à época arcebispo de Buenos Aires e bastião do conservadorismo, afirmou que o projeto de casamento entre pessoas do mesmo sexo se tratava de um “movimento do diabo” que pretendia “destruir o plano de Deus”. É de se perguntar sem ofender: De repente, o “movimento do diabo” passou a ser movimento do céu para o entendimento do cardeal Bergoglio? Não estou convencido disso, por mais que eu curta o jeitão pastoral e mais próximo dos clamores sociais do Papa Francisco. Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa, diria o provérbio popular. Estou convicto  que há que se entender o cuidado com as palavras quando a amplitude do cargo demanda uma atenção maior com elas --- à vista do estardalhaço negativo que já tinha demandado quando ainda era cardeal na Argentina. Foi um período muito tenso e com muitas trocas de acusações entre a presidenta argentina e o então arcebispo Bergoglio. A imprensa local assegurou de dicotomizar a sociedade dizendo que ela se encontrava dividida entre os "a favor" (no caso, a Igreja de Roma e vários setores conservadores) e os "contrários" (políticos, de uma forma geral, e movimentos ligados aos direitos civis dos cidadãos LGBTs) à "família" (como se fosse um bloco fechado e formatado, sem chance de qualquer desvio do padrão heterossexual). Dessa vez, em entrevista aos repórteres que viajavam com o pontífice romano do Rio de Janeiro de volta ao Vaticano, não falou mais em plano diabólico. Foi mais pastoral: "quem sou eu para julgá-la", esclareceu. Ele foi sábio com as palavras, sincero, diria. Em nenhum momento foi contrário ao catecismo oficial da Igreja. Os "atos desordenados" continuarão a ser "atos desordenados" e o remédio continuará a ser o celibato imposto ("As pessoas homossexuais são chamadas à castidade", afirma o § 2359 do Catecismo).

Você deve estar se perguntando o porquê de ter lançado mão de ilustrar a matéria com as declarações do Arcebispo de Cantuária com o Papa Francisco. Resolvi propositalmente trazer ao caso esta breve reflexão sobre a postura no papel de um líder religioso com ramificações tão abrangentes quanto é o caso do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, em detrimento do exemplo de outro líder religioso cristão, pastor do maior rebanho cristão do mundo, o Papa Francisco. Tenho razões para fazê-lo. Há muitas diferenças --- assim como há muitos pontos de convergência --- entre eles enquanto cristãos engajados na propagação de valores muito bons. Pra mim, no entanto, a mais evidente dessas diferenças reside no fato que o Arcebispo de Cantuária não é o papa dos anglicanos. Da arquidiocese de Cantuária não sai os ditames doutrinários e morais estabelecidos pelo Magistério da “Church of England” para serem seguidos por todos os anglicanos espalhados nos mais de 160 países do mundo em que estão presentes (ao lado da Igreja de Roma é o grupo cristão mais ramificado pelo mundo). Não! A Comunhão Anglicana é dividida em Províncias autônomas (o Brasil é a 19ª Província), o que vale dizer: se o Arcebispo de Uganda, Revmº Stanley Ntagali, defende que homoafetivos não podem ter cargos na Igreja, a não ser que sejam celibatários e mantenham o discurso conservador de um só tipo de família (qualquer semelhança com a visão romana, neste aspecto, é mera coincidência...), tendo dito, inclusive que “os homossexuais são amados e valorizados por Deus e merecem o melhor cuidado pastoral e a amizade”   1, e isso para ficar bem na fita e não dar aquela imagem de incentivador da caça aos gays (pura politicagem, desculpem), o mesmo não se vê, por exemplo, na Província do Canadá e na dos Estados Unidos, que são diversas entre uma e outra mas ao mesmo tempo autônomas e incontestavelmente bem menos conservadoras, ainda que pertencendo a mesma Comunhão Anglicana que a província do arcebispo de Uganda. Hã? Como assim? É possível? Não há um prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé anglicana que repreenda (e puna) as províncias dos EUA e do Canadá por aceitarem clérigos abertamente gays ou até mesmo por realizarem matrimônio igualitário? Não, não há. Não há porque não existe esta hierarquização internacional da Igreja Anglicana com um poder centralizado de uma, digamos, Cantuária vaticanizada. Somos diversos, embora mantendo a Unidade como sinal de que a Igreja de Cristo é Una, Santa e Católica.


No Brasil, contrariando alguns conservadores que parecem preferir o modelo de boa parte das províncias anglicanas africanas, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil tem dado passos muito seguros na condução do povo de Deus com valoroso cuidado pastoral e atenção aos novos modelos de família, preferindo se coadunar às evoluções da própria sociedade, dos textos constitucionais e das decisões da Suprema Corte, ressignificando seu posicionamento e, por conseguinte, sua liderança em atenção aos valores essenciais do Evangelho, que acolhe a todos sem impor-lhes rótulos, na grande Missão de anunciar o Evangelho cujo alicerce é a fé inabalável em Cristo, o Cabeça da Igreja, e não na moral, a construção cultural de um povo num determinado momento histórico. Em outras palavras, somos muito menos conservadores que as províncias africanas e muito mais próximos de uma teologia histórico-crítica como as das províncias estadunidense e canadense, pagando um alto preço, diga-se, para nos manter fieis à ética do Evangelho, que não se coaduna aos valores da chamada Teologia Moral de Causa e Efeito, filha religiosa do Sacrifício Competitivo de Caim —, que prega que os que choram são culpados-infelizes; os mansos são percebidos como desinteressados pelo zelo que disputa espaço no chão da Terra; os que tem fome e sede de justiça são interpretados como seres equivocados em suas ignorâncias radicais, pois, a única justiça que os mestres da TMCE conhecem é aquela que eles mesmos decidem.
 
Dito isto, sem pretender estender um assunto que parece ser inesgotável, a reportagem sensacionalista do América Blog não quer informar nada, apenas fomentar o discurso de ódio distorcendo na própria edição as palavras de Justin Welby, que, repito, não exerce autoridade central na Comunhão Anglicana como se fosse um papa inglês. Não foi à toa que o articulista finalizou a matéria dizendo com todas as linhas: “eu sempre suspeitei que, na sua essência a Comunhão Anglicana era tão amarga, desagradável e odiosa como a Igreja Católica, os Mórmons e todo o resto. E Justin Welby apenas confirmou isso.”. De igual modo, ao ter-me referido ao Papa Francisco, ao mesmo tempo que não quis fechar os olhos para a obviedade de seu firme posicionamento conservador, pretendi salientar que, apesar dos pesares, houve avanços na fala e na postura pastorais. No entanto, o articulista do "America Blog" não quis seguir o mesmo caminho ao preferir o discurso raso e raivoso do achincalhamento às religiões. E não apenas isso, posto que vilipendiou a informação conforme o propósito que desejava desde sempre: desmerecer, pôr em lugar de inferioridade em relação ao que pensa. Isto é ou não é o modus operandi mais comum nos grupos fundecas? De fundamentalistas, de todos os tipos e vertentes, sejam os religiosos ou os da "jihad ativista", queremos estar distantes!

O Movimento Episcopaz enquanto pastoral de Direitos Humanos e, numa amplitude muito maior, os cristãos verdadeiramente comprometidos com os valores do Reino de Deus, sejam anglicanos, romanos ou quaisquer outros, não têm tempo a perder com quem deseja polarizar e amargar ainda mais o mundo (uma nova forma de rotular e, com efeito, reforçar os estigmas). Como canta o saudoso poeta Renato Russo, “não temos tempo a perder, nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério!

Ao lado de todos e todas que agasalham o afeto e creem no Evangelho que inclui todas as pessoas que, livremente (posto que até impor a inclusão é atentar contra a liberdade, isto é, não é amar!), desejam com seus corações ser incluídas na Igreja de Cristo,


Ricardo Pinheiro

Coordenador do Movimento Episcopaz
Na segunda-feira santa, 14/04/2014. A.D.



* 1 – A afirmação foi dada quando o Arcebispo de Uganda se empenhou junto ao presidente daquele país para emendar a proposta do Parlamento que tornava crime a homossexualidade, passível até de morte. De fato, houve a aprovação da tipificação penal dos chamados atos e da propaganda homossexual, reforçando a imposição do único modelo válido como sendo aquele que representa a família tradicional heterossexual, mas acatando o pedido do Arcebispo para retirar a pena de morte. Link: <http://www.bbc.com/news/world-africa-25993140>
 

9 de abril de 2014

:: Saia do lugar, faça, inclua: ame! ::..


Ninguém se esquiva dos seus dramas repetindo jargões religiosos. Exorcizar os males da vida com frases de efeito, não passa de coreografia ou de placebo religioso. Não custa notar: idealizações neurolinguistas ou espirituais são impotentes para alterar a realidade. 

Hannah Arendt (filósofa que buscava entender a mente dos assassinos nazistas durante o tribunal de Nurembergue) se inquietou. Os generais de Hitler respondiam às perguntas dos promotores com clichês. Daí, a conclusão de Arendt: Clichês, frases feitas, adesões a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência.

A vida não acontece nas voltas que a terra dá ao redor do sol, mas na coragem, e prontidão, com que reagimos aos impasses do cotidiano.


O futuro não se concretiza na simples cronologia do tempo. A sequência das decisões, gestos, palavras e atitudes geram consequências. Paul Ricoeur repensou fé, acertadamente: uma oportunidade convertida em destino através das constantes escolhas. Sim, o desdobramento de cada escolha anterior inventa um futuro novo.

Quem deseja alterar sua própria história, precisa fugir do desdém, rejeitar o ódio, abominar o rancor, desprezar a avareza e desdenhar da inveja. Vive quem agasalha afeto e semeia a verdade, promovendo concórdia.

Ricardo Gondim, in "O abismo entre o clichê e a vida(extraído)
(07/04/2014). 


5 de abril de 2014

Pra que tumultuar se Cristo é Senhor de todos? ::..



:: Pequena consideração sobre a tal “ideologia de gênero” ::


De início, contrariando o que alguns possam pensar, bom que se afirme de forma credal que Cristo é Senhor de todx (todos e todas), sejam pessoas, anjos, potestades, não importa. O Senhor reina e governa absoluto sobre os Tempos, as Eras, os Mundos, o ou os Universos, os lugares mais elevados e as profundezas mais escuras. É Senhor de tudo e todos, creiamos ou não. Sem Cristo, como afirma São João, "nada do que foi feito se fez". Este preâmbulo é proposital, serve para marcar dois fatos incontestáveis: I - Quem ama conhece Deus; II - Quem não ama não conhece Deus (cfr. 1ª epístola de São João).

Continuando...

Não, não se preocupem. Não vamos polemizar nada nem nos aprofundar sobre tema tão delicado. Ultimamente temos visto ferrenhos debates pró e contra a então chamada "ideologia de gênero" em pauta no projeto do Plano Nacional de Educação 1. Infelizmente, alguns setores ligados a religiões (cristãs) tentam reduzir o debate a um chavão: “pela família, diga não à ideologia de gênero”.

Não adentrarei aqui no significado que emprestaram a tal ideologia de gênero. Há muito terror misturado aos verdadeiros ingredientes. Para piorar, resolveram "diminuir" a discussão tão necessária para as bases de nossa Educação (com "E" maiúsculo) com argumentos absolutamente religiosos dentro de um Estado que, até onde se saiba, é constitucionalmente laico. Infelizmente, setores religiosos tentam polarizar a questão para “aqueles a favor da família” e “aqueles querendo destruir a família”. Pra que isso? Não seria perversidade o reducionismo de um debate que deveria ser pedagogicamente mais profundo e sem ‘forçação’ de barra alguma?

A experiência na vida demonstra que, na prática, existem inúmeras famílias com outras configurações que não a tradicional (pai, mãe e filhos). Sem querer ferir consciências, estranho notar que não se vê apresentação de argumentos (daqueles que polarizam a questão apontando como diabos “aqueles querendo destruir a família”) a partir de dados empíricos e não por suposições. Essa história de destruição da família não é pegar pesado, não? A História está aí para nos rememorar que um dia fizeram isso quando as mulheres conquistaram direito ao voto, a cargos eletivos, a lugares nas Forças Armadas... e se você for anglicano se lembrará até dos argumentos contrários quando dos Sínodos (foram vários) até que se aplainassem consciências quanto à ordenação das mulheres.

Pra que, então, forçar e singularizar o discurso e não apenas apontar os caminhos (o plural é proposital, pois falamos de pessoas, indivíduos, seres humanos)? É acaso uma proposta perigosa a que proponho? Por que razão?

O assunto se tornou polêmico porque gente sem Deus (mas com títulos religiosos, veja só!) resolveu mentir e alardear que há grupos inimigos da família, querendo seduzir a mídia e as crianças e os jovens em geral com uma espécie de proposta "seja gay porque é legal". Só esqueceram de complementar: só vai levar uma lampadada fluorescente na cara quando estiver pela rua (pra pegar bem, mas bem leve)  ou assistir ao padre ou ao pastor que você tanto gosta dizendo que você não terá amizade com Deus (afinal, Deus é tão Deus que existe para concordar com o que nós criamos por conta própria). Eu particularmente tenho pena desse Deus... sim, como cristão, confesso estar penalizado com esse Deus-ídolo-fundamentalista que criaram. Dá dó!


Na assembleia realizada no dia 24/03/2014, na sede da Arquidiocese do Rio, a União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro (UJURCAT-RJ) se posicionou, por unanimidade, contrária a inserção do termo ‘gênero’ e da expressão ‘orientação sexual’ como princípio e/ou diretriz do Plano Nacional de Educação - PNE. O arcebispo do Rio, cardeal Orani João Tempesta, presidiu a Santa Missa de abertura e participou de todo o encontro da UJURCAT. Na homilia disse: “vê-se, portanto, quão arbitrária, antinatural e anticristã é a ideologia de gênero contida no Plano Nacional de Educação (PNE) e que por essa razão merece a sadia reação dos cristãos e de todas as pessoas de boa vontade”. Alto lá! Todas as pessoas de boa vontade, não. Há seres pensantes na Terra, graças a Deus!

Destacamos alguns que se levantam em favor de que a educação gere conhecimento e tal conhecimento não seja impedido por razões religiosas:

UNE - União Nacional dos Estudantes

União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES)
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) 
Conferência Nacional da Educação (Conae)
Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP)
FENAPAE - Federação Nacional das APAEs
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil

Conselho Federal de Serviço SocialCentral Única dos Trabalhadores (CUT)
Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras (FASUBRA)
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST)
Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional (SINASEFE)
União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME)



Então, cabe aqui a pergunta: pra que, em grande parte, líderes religiosos buscam aterrorizar seus seguidores para que lhes apoiem ou humanistas e liberais buscam encarcerar os contrários como “retrógrados”? Não há chance para a liberdade de pensar por si mesmo(a)? Está sepultada de vez a luz do cartesiano “penso, logo existo”? Como lido no sítio da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), em artigo publicado por um recente cardeal, “segundo os defensores da ideologia de gênero essas construções sociais opressivas só serviram até hoje para minimizar a mulher frente aos homens. Seria necessário conscientizá-las de que a sua vida de casa, cozinha e criança não tem mais sentido, essa conscientização levaria a mulher a entender o quanto é explorada e enganada pelo modelo patriarcal de sociedade em que vivemos. Uma vez liberta, ela poderia optar por reconstruir-se do modo que bem entender.”.

E por que a mulher, segundo o argumento do respeitado autor, não pode se conscientizar que é muito mais que uma reprodutora e cuidadora do lar (o mesmo se diga em relação ao homem)? Ao perceber o século em que estamos, a fim de evitar desgastes em nossa página (que, repito, não busca levantar um acirrado debate sobre o tema!), fica difícil pensar, ser, existir e se calar... Mas, não se preocupem, não acirraremos ânimos. De ninguém.


Já que falamos de algo que tem tudo a ver com o PNE – Plano Nacional de Educação – que tal todos nós nos esforçarmos para lutar em prol da melhoria de condições estruturais nas escolas públicas, pois é sabido que muitos jovens terminam o ensino médio como analfabetos funcionais e a maioria dos professores possui salários que estão abaixo do que deveriam receber?



Como dito pela jornalista Maira Kubik, a editora da versão brasileira do jornal Le Monde Diplomatique: “Refletir sobre o gênero significa mexer com a ordem das coisas e questionar o que aparentemente está estável. E isso incomoda. A cada vez que novos caminhos são abertos em direção a uma sociedade mais horizontal, há uma reação contrária por parte daquelxs que não querem compartilhar seus privilégios.”
 

Ao invés de abusarmos de técnicas para criar uma estranha sensação de “guerra santa” entre o bem (aqueles contrários à ideologia de gênero no Plano Nacional de Educação) e o mal (aqueles favoráveis à ideologia de gênero), de tentarmos induzir os leitores a ir por este ou aquele caminho, que tal deixarmos as pessoas caminharem com suas próprias pernas, refletindo e decidindo o que pensar a respeito do tema? Não somos favoráveis ao pensamento de que ‘o cristão deve agir apenas assim e assim’, mas de que o cristão deve sempre se pautar pelo viés da misericórdia, da justiça para todos (e não apenas para a maioria ou alguns) e do respeito até por quem pensa, crê e vive diferentemente de nós. Aprendamos, portanto, com o Cristo e Senhor da Igreja. Sejamos, como ensina o apóstolo, seus imitadores.

Ao invés de papagaios sejamos cristãos que não mais precisam de “aio” porque aprenderam a confiar em Cristo que, por sua Graça, nos faz andar com ousada fé e a ver a vida para além de nossos muros e guetos.

Como diz São Paulo aos Efésios, “Desperta, ó tu que dormes [não anda com as próprias pernas/ não pensa por si mesmo], levanta-te de entre os mortos [se não pensa, logo não existe!], e Cristo te iluminará”.

Ilumina-te também!

A favor da vida, das famílias e de um país onde as diferenças sejam motivos de louvor a Deus e do impactante testemunho cristão de saber coexistir, naturalmente lançando "sabor de Deus" (Mt 5,13) aonde quer que estejamos,




Ricardo Pinheiro
Coordenador do Movimento Episcopaz
Anglicanos pró-diversidade & pela paz

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NOTA DE RODAPÉ:
1.
O PNE é um projeto que estabelece uma série de obrigações em dez anos, entre elas a erradicação do analfabetismo, o oferecimento de educação em tempo integral e o aumento das vagas no ensino técnico e na educação superior.