25 de novembro de 2014

:: Os garotos que transformaram a dor em sucesso

Publicado pelo site Macaco Velho, em 7 de novembro de 2014

Todo mundo almeja o sucesso. Mas o que fazer quando estamos nos sentindo muito pra baixo e o mundo parece conspirar contra nós? Quando sentimos muita dor e nos abalamos, a vida acaba perdendo um pouco a graça. Pior ainda é quando isso acontece a uma criança, muito jovem para conseguir lidar com esse peso. Mas todos nós sempre temos a oportunidade de usarmos toda essa dor e angústia para nos catapultarmos em direção ao sucesso. Basta só acreditar de verdade.
É isso o que o vídeo abaixo representa. Nele, veremos a audição do grupo Bars And Melody (BAM) no programa de calouros Britain’s Got Talent. Os dois integrantes do grupo, cantor Charlie Lenehan (15 anos) e rapper Leondre Devries (13 anos) têm uma mensagem muito importante a passar sobre o bullying e como isso afeta uma criança. A música que eles apresentaram, da autoria do jovem Leondre, conta a sua história e os seus pensamentos enquanto sofria abusos na escola. A letra é tocante e a melodia impressiona. Confira a apresentação:

Charlie tem uma voz boa e tem futuro como vocalista, se ele estudar bastante e se preparar. E Leondre fez um trabalho magnífico com essa letra. Poucas músicas passam a mensagem com tanta clareza sobre o que o bullying causa em uma pessoa. Felizmente, Leondre já não sofre mais abusos e já trocou de escola.

16 de novembro de 2014

:: Ministérios inclusivos sesquicentenários


Igreja de São Paulo, Richmond (EUA)

— Sinais históricos da missão pastoral inclusiva numa comunidade episcopal sesquicentenária

Antes de mais nada é importante esclarecer que ao falar de inclusão não buscamos compreender ministérios religiosos específicos (ou exclusivos para determinados grupos ou categorias de pessoas), mas salientar aquelas comunidades cristãs históricas com uma clareza mais afirmativa sobre o “ethos inclusivo”, sobretudo quando ligadas à Comunhão Anglicana.

O chamado movimento inclusivo nas comunidades cristãs não é tão recente, embora não seja tão antigo quanto pareça. Foi se desenvolvendo ao longo da própria evolução da sociedade e seus costumes. Enquanto movimento é recente, porém no aspecto do anúncio eclesiológico do “ethos” que a todos respeita foi sendo galgado há mais tempo, ainda que ao sabor dos ventos da própria cultura em cada contexto histórico e social.

Assim surgiu, por exemplo, na histórica Igreja de São Paulo em Richmond. Nada da noite para o dia, mas aos poucos, respeitando  e não estuprando  as consciências e o discernimento da evolução dos costumes e da compreensão crítica do próprio texto sagrado.

Para se chegar ao que hoje se vê, com pastorais as mais diversas e uma Missão Pastoral que dignifica a presença de todas as pessoas, fugindo do fundamentalismo e de todas as formas de intolerância e preconceito, as sementes começaram há muitas gerações passadas. No sítio da comunidade é possível se ver o convite, que diz:

"O que quer que você traga para nós ou quem quer que você seja, nós nos alegramos porque você está aqui. A paróquia de São Paulo é um lugar aberto a todos.... nós levamos nossa aliança batismal a sério. Quando prometemos "lutar pela justiça e pela paz entre todos os povos, e respeitar a dignidade de cada ser humano" (Livro de Oração Comum) nós queremos dizer que isto se refere a TODAS AS PESSOAS, independentemente da idade, cultura, deficiência, origem étnica, gênero, identidade de gênero, estado civil, nacionalidade, raça, religião, orientação sexual ou condição socioeconômica."

Daí, ao ler tais palavras, não é fácil imaginar que uma comunidade dessas possa ter mais de um século e meio de existência (na verdade, mais de 160 anos) e ter sido uma das pioneiras na Missão Pastoral de Inclusão no solo norte-americano.

Fazendo uma espécie de mergulho histórico a paróquia passou por uma verdadeira “metanoia” (lit., mudança de pensamento), pois quando Richmond se tornou a capital dos estados confederados durante a Guerra Civil ou Guerra da Secessão (1861-1865), a São Paulo não apenas era a igreja da qual o presidente Jefferson Davis era membro com sua família (recebidos à comunhão em 1862), mas também o  famoso general confederado Robert Lee. A igreja também serviu durante a Guerra Civil americana como hospital para as tropas confederadas.

Eis que dentro deste contexto de turbulência política, com a abolição da escravatura declarada e promulgada pelo presidente Lincoln, porém, sem qualquer efeito nos estados do sul, inclusive Richmond, onde a paróquia está localizada, um episódio com os primeiros sinais de inclusão acontece portas a dentro. Os relatos, conforme traduzi, são impressionantes (sobretudo se lidos dentro dos limites daquele contexto histórico e social onde negros não entravam nem se misturavam em igrejas com brancos):

“O Tenente Coronel Broun, de Charleston, W. Va., escreve ao ter estado presente na Igreja de São Paulo, Richmond, Va., logo após a Guerra, quando um negro marchou em direção à Mesa de Comunhão à frente da congregação. A sua narrativa do evento é a seguinte:

"Dois meses após a evacuação dos negócios em Richmond chamaram-me para Richmond por alguns dias. E em uma manhã de domingo, em junho de 1865, eu tinha ido assistir ao serviço [religioso] na Igreja de São Paulo. O Rev. Dr. Minnigerode [que foi pároco reitor naquela comunidade por 30 anos, compreendendo o período da Guerra Civil] pregou.

Era dia de comunhão; e quando o ministro estava pronto para administrar a Santa Comunhão, um negro na igreja levantou-se e avançou para a Mesa da Comunhão. Ele era alto, bem vestido e preto. Foi uma grande surpresa e ao mesmo tempo um choque aos comungantes e outros presentes. O seu efeito sobre os comungantes foi surpreendente, e por vários momentos se mantiveram nos seus lugares em silêncio solene, sem se mover...

O General Robert E. Lee [(herói confederado na Guerra Civil e paroquiano na São Paulo] estava presente e, ignorando a ação e a presença do negro, surgiu em sua forma digna como era-lhe o costume, caminhou até ao trilho mor do altar, e reverentemente ajoelhou-se para participar da comunhão, e não muito longe do negro. Esta sublime concepção do dever pelo general Lee em tais circunstâncias provocando e deixando alguns irritados tinha um efeito mágico sobre os demais comungantes (incluindo o escritor), que passaram para a frente à Mesa da Comunhão. Por essa ação do general Lee os serviços eucarísticos foram realizados, era como se não houvesse um negro ali presente. Foi uma grande exposição de superioridade mostrada por um verdadeiro soldado cristão sob as circunstâncias mais difíceis e ofensivas".”

Considerando o fato que aquela comunidade muito provavelmente recebeu a visita de um cristão negro, talvez um ex-escravo, que ousou ser o primeiro a se levantar na hora da Eucaristia e seguir até a Mesa da Comunhão; considerando que a abolição da escravatura só recebeu o aval do Congresso americano em dezembro de 1865 (e o episódio data de junho), tendo demorado a acontecer na prática nos estados do sul, como Virgínia; considerando que, embora causando constrangimento, o negro não foi expulso da comunidade (o que não era incomum naquele estado e naquele contexto) e pôde comungar ao lado dos demais paroquianos, que por fim não se importaram com sua presença; posso considerar que naquele dia alguma coisa mudou por ali. 

Aquela comunidade nunca mais foi a mesma. Estava plantada uma semente de inclusão que viria a germinar e gerar muitas iniciativas de aproximação e acolhimento, as quais, hoje, mais de um século e meio depois, justificam a ampla abertura que a paróquia tem para todas as pessoas, sobretudo aquelas marginalizadas ou excluídas.

Para começar a incluir todas as pessoas, o que não é favor algum quando consideramos a força da Mensagem do Evangelho de Jesus (e nós, anglicanos, sabemos muito bem!), basta decidir querer encarnar o espírito promovedor da justiça para todas as pessoas. Tudo o mais é (ou será) mera consequência da quebra de paradigmas pela prática do amor.

Que as paróquias episcopais anglicanas do Brasil desenvolvam o mesmo destemor na sua Missão pastoral inclusiva e acolhedora. Abrir as portas (o 1º passo) todas já deram. 


Ficaremos estagnados por aí? 


R. P.
Movimento Episcopaz
Anglicanos Pró-diversidade & pela paz
16/11/2014



BREVES OBSERVAÇÕES DE RODAPÉ:

1) Este relato foi publicado (em inglês) na revista “O Veterano Confederado”, outubro de 1905.

2) Em junho de 1865, data do relato, a abolição da escravatura já tinha acontecido desde 1º de janeiro de 1863 através do Ato de Emancipação assinado por Lincoln, o que nada mudou na prática. A escravidão continuava acontecendo livremente.


3) Foi somente em dezembro de 1865 que o Congresso norte-americano aboliu a escravidão com a aprovação da 13ª Emenda Constitucional. Todavia, só 1868 os negros obtiveram direitos iguais aos brancos por meio do artigo suplementar 14 (que ainda não conferia o direito eleitoral). 


6 de novembro de 2014

:: Uma vida pelo "Little Pony" — A resposta ao medo do diferente de nós


Quantos de nós já não tivemos conhecimento de vítimas, algumas fatais, de bullying?

Em todas as partes do mundo crianças, adolescentes e até adultos dão cabo de suas vidas (ou tentam, às vezes com graves sequelas) diariamente em decorrência de não mais suportarem os ataques ou a exclusão perpetrada por aqueles que não admitem o diferente da maioria?

No início do ano uma reportagem rodou o mundo noticiando um caso nos Estados Unidos envolvendo o pré-adolescente [1] Michael Morones, 11 anos, que tentou se matar depois de sofrer bullying homofóbico na escola. 


O garoto, que tentou se enforcar, foi encontrado pelos pais desmaiado em seu quarto. Segundo os médicos, como o cérebro ficou muito tempo sem receber oxigênio, a criança teve graves sequelas. A mãe de Michael, Tiffany Morones, disse que o motivo do bullying era o fato de Michael ser fã do desenho “My Little Pony” (Meu Pequeno Pônei). Por conta disso, os colegas de Michael o chamavam de gay. Segundo a mãe disse o garoto já se queixava a algum tempo que estava cansado de ser humilhado todos os dias na escola. 

A história de Michael Morones é a de muitos em toda a parte. A sua família se uniu, criou a Fundação Michael Morones que luta contra o bullying, ganhou adesão de muita gente no seu país, inclusive dos criadores do desenho “Meu pequeno Pônei”.  Michael perdeu alguns movimentos, mas segue lutando e sendo uma espécie de “mensagem encarnada” contra o terror do bullying.

Sabe por que essas coisas ainda acontecem?

Porque a estupidez humana, cuja pedra angular é a aversão a tudo o que escapar da norma, do padrão, se dissemina com o reforço ao discurso inconsciente em sua defesa. Isto se dá de muitas formas. Assim como numa cria de muitos filhotinhos aquele que for diferente ou deficiente, fugindo ao padrão de beleza ou de aceitação da maioria, será estigmatizado como imprestável, sendo portanto rejeitado, os seres humanos ensinados pela norma da maioria repetirão o processo entre seus iguais. O gordinho, o magrelo, o pretinho, o surdo, o cego, o dentuço, o orelhudo, o albino, o delicado demais, a machona, enfim, serão alvo do rigor perverso exercido (porque um dia foi aprendido) pela maioria.

Por que se diz que aprendemos?

Porque ninguém nasce estúpido, intolerante, preconceituoso, homofóbico, binarista (o azul é dos meninos e o rosa é para as meninas; jamais o contrário), machista, perverso nem assassino. Somos ensinados assim. Somos moldados (ou deformados) a repetir o papel na sociedade. Somos preparados a entrar no mundo como se estivéssemos com um cinto de explosivos prestes a detonar... não em nome de Alá (embora isso aconteça em nome dele e também de Jesus Cristo), mas pelas ideologias que nada mais são que o fruto do acordo social da maioria... Somos ensinados a sermos meninos e meninas bomba.

Há pais que parabenizam, elogiam e dão tapinhas nas costas: “isso aí, rapaz!”, “essa é a garota do papai!”... São premiados por serem cruéis. Nós ensinamos e preparamos os futuros mantenedores de uma sociedade cruel, maligna e distante da Mensagem do Evangelho.


O que nem todos conseguem enxergar é que por trás do discurso “social” da maioria intolerante está a semente que alimentou aquele pai e aquela mãe a se tornar o sujeito capaz de ensinar seu filho ou sua filha a agir exatamente como eles, um dia, agiram. Por trás da formação doméstica, nascida em casa, ensinada pelos pais ou responsáveis (ou qualquer deles), invariavelmente, está o discurso religioso de exclusão e de incitação à perpetuação do ódio (que nem sempre vem apresentado na embalagem de ódio, pois pega mal a qualquer ser que se diga adorador de um deus; às vezes, vem embutido discretamente naquela faixa "inofensiva" de que se está lutando pela família, que Deus ama o pecador mas não o pecado — que sempre é visto na perspectiva sexual heteronormativa e, ainda assim, de quem não se conformar com a regra da maioria).

Nós aprendemos direitinho a lição de casa para odiar diferentes, lançá-los nas fogueiras de nossas inquisições religiosas ou simplesmente ridicularizá-los até que eles mesmos saiam do caminho (de uma maneira ou de outra).

Sim, somos crueis... mas o inferno são sempre os outros, preferencialmente, os hereges que afrontam ao deus ideológico, pura projeção de nossa miséria e covardia!

Por falar em deuses ideológicos, bom que se diga que nem todo conservador é fundamentalista ou intolerante, mas a maioria o é. O conservador defende, via de regra, a não mudança nas relações sociais. "Deus fez assim. Deus criou assim, tá na bíblia, etc". O novo assusta. O diferente incomoda. Não pode ser normal. Não pode ser aceito, de jeito nenhum... e se aceitarem, aqui em casa não! Ouviu bem, né Arthurzinho? Já sabe, né, Mariana? Aqui em casa, não!

Fugir do padrão ensinado por seus pais é quase um acinte. Se alguém sofre bullying alardeiam que é por exclusiva responsabilidade de quem sofreu... Afinal, tentam justificar inconscientemente, quem mandou colecionar figurinhas de Twilight Sparkle, vir com um caderno com a imagem de Rainbow Dash, a pônei alada com aquela crina nas cores do arco-íris, como o pré-adolescente Michael Morones fez? Quem mandou chegar na escola com aquele cabelo azul turquesa ou com aquela calça de couro colada no corpo “nada a ver”? Quem mandou ser homem e ter voz fina? Quem mandou nascer albino, preto, de cabelo duro, ser vesgo, fanho, orelhudo, narigudo, dentuço, afeminado, masculinizada, ser filho de dois pais ou de duas mães, usar “hijab” ou “xador” (ou um quipá, no caso dos judeus) num ambiente laico ou em algum confessional cristão, por exemplo?

Os abusadores, aqueles que praticam o bullying demonstram que o furor contra o alvo nunca é satisfeito após o ataque. É um ciclo maligno, pois a violência nunca é suficiente. A cobiça instalada nos abusadores é insaciável, por isso segue o fluxo para mais e mais gerações numa longa cadeia de emulações comportamentais e coletivas. A fraqueza de uns é imediatamente condenada por outros, que se unem para impedir que aquela repreensão ou aquela violência também lhes acometam um dia. A cadeia de maldade não tem fim... eis por que o mundo e seus sistemas de exclusão jazem no maligno. O alimento desse furor nasce desse ambiente, que não é geográfico mas plenamente habitável nos limites da consciência de quem é parte ou cidadão deste mundo maligno.

Sabe-se que toda regra oferece uma exceção. Mas exceções aqui são filetes de luz em meio a uma geração em trevas de intolerância. Não é a regra, isto é, não faz parte da maioria. Pois, afinal, a maioria dos pais intolerantes formarão seres que engrossarão as fileiras de intolerantes entregues à sociedade.

Mas é na religião que embasam a perversidade que alguns poucos tentam esconder (grande parte, hoje em dia, nem mais esconde... e ainda citam orgulhosamente trechos pinçados de seus livros sagrados, pois para os tais, pasmem, a verdade que liberta é o texto escrito a trocentos mil anos atrás!).


Bullying acontece em todos os ambientes, mas nascem lá atrás no discurso religioso fundamentalista. Mesmo que o filho ou a filha, mais tarde, não venha a participar da religião dos pais ou até mesmo a crer na existência de alguma divindade (boa parcela de ateus, não todos, mas boa parcela foram religiosos feridos um dia), invariavelmente continuarão a reproduzir o papel formador aprendido na infância. Volto a dizer, existem exceções mas, obviamente, não como regra.

Todo machista, preconceituoso, homofóbico é um religioso?

Claro que não, mas grande parte nasceu ou teve influência do discurso conservador, nascido no contexto religioso fundamentalista. O poder que ele exerce ao longo da formação das gerações é enorme, mesmo que o sujeito abra mão dos conteúdos credais fica no entanto a raiz das intolerâncias dentro do subconsciente, até por uma questão de autopreservação contra possíveis agressões futuras. Eis por que o machista, o racista, o homofóbico, o misógino, o xenófobo, enfim, não passa de um inseguro de si mesmo.

Religião que não “religa” o ser humano com o seu próprio valor de ser humano e a importância de sua dignidade,  na verdade, não religa porque nada carrega de valor na perspectiva de “algo maior” ou, dentro do contexto do que nós cristãos cremos, não tem correspondência ao Evangelho.

A verdadeira religião ama. A verdadeira religião não faz acepção de pessoas. A verdadeira religião acolhe até quem é diferente, seja estranho ou não para você ou para mim.

A verdadeira religião não é uma presunção do homem se ligando a Deus, até porque nós cremos que Cristo pagou tudo, ou seja, estamos ligados a Ele gratuitamente. A única religião que o ser humano pode praticar é a da religião dele com seus semelhantes. É quebrando muros de separação com seu semelhante, é perdoando seu semelhante, é se reconciliando com seu semelhante, é tendo projetado para o semelhante o “olhar de Cristo”, é se tornando humano contra a desumanidade presente.

Infelizmente, a ideia do divino é  tratada na linha da horizontalidade. Portanto, se alguém é machista assim crê que seu deus também o é. Se alguém defende que não existem outras orientações sexuais abençoadas senão a da “norma padrão”, no fundo, acredita que seu deus assim o é e assim declara. Deus e criaturas são um só, iguais em desejos, amores, fobias, inseguranças e ódios. Esse deus, acertadamente Nietzsche proclama: está morto!

Por isso mesmo perguntar quem é Deus não nos parece ser a questão.

E sim:

Quem é Deus para você?

A partir da resposta se poderá ter algum ou alguns sinais claros que expliquem algumas condutas e o porquê de disseminá-las na formação dos filhos ou de quem lhe esteja sob responsabilidade e cuidado de formação.

Infelizmente não chega a ser mito afirmar que boa parcela dos intolerantes e preconceituosos na sociedade foram “chocados” nas igrejas mantidas ou dirigidas por preconceituosos e intolerantes. Já outra parcela parece ter aprendido no exemplo estabelecido pela conduta da maioria, preferindo consentir — até para se preservar de ataques semelhantes — com os acordos sociais que mantêm a exclusão e tornam o diferente, o estranho, o esquisito alvo dos gracejos, da violência e da exclusão.

Tudo isso, no entanto, tem aumentado ultimamente. A violência, o bullying, a homofobia (muitas vezes disfarçada de suposta aceitação, desde que não seja qualquer coisa das portas para dentro de sua própria casa) e todas as demais formas de diminuição, humilhação e aniquilamento do semelhante.

Combate-se a ignorância com educação. Por outro lado, lamentável é saber que no que depender dos parlamentares ligados às bases religiosas fundamentalistas (estes que tratam Deus como uma ideologia, por isso incitam seus fieis e eleitores ao ódio e citam trechos da bíblia para tentar justificar a maldade que lhes habita), nada será mudado tal como já está. Insistem malandramente que a educação sexual é tarefa privativa dos pais. Isto porque sabem que é impossível conseguir manipular com ignorância os setores públicos da sociedade como fazem dentro de seus currais religiosos.

Combatem-se os preconceitos, de uma forma geral, com legislação que ampare as vítimas. Triste é lembrar que não está sendo fácil tipificar algumas condutas que a sociedade reprova justamente porque os mesmos setores conservadores, ligados a currais religiosos, fazem manobras e exercem a velha tática da chantagem dentro do jogo político com o Governo para trancar ou retirar de pauta temas que não lhes sejam agradáveis (leia-se: que vislumbre tratamento igual a todas as pessoas).

Combate-se a miséria de alma, que só ama (e quando ama!) quem for seu clone, quem estiver caminhando conforme a norma estabelecida pelo acordo da maioria, tomando a decisão de vencer a violência e a intolerância com a aplicação da Graça mediante a prática do amor e o abandono do medo de quem lhe for diferente.

Veste-se com as vestes do Cordeiro de Deus quem ousa denunciar toda forma de violência, dor e miséria contra o próximo enquanto não se cansa de proclamar com gestos simples na vida que a misericórdia triunfa sobre todo juízo de valor, seja moral, religioso ou de qualquer outra natureza.

Sejamos, portanto, incansáveis na prática do bem e no exercício do amor, o qual respeita até quem nossa natureza humana se recusa a enxergar como semelhante. O amor e a bondade não nascem nos corredores de nossa humanidade, pois nós não somos a fonte; antes, são dons de Deus que estão à disposição de quem decidiu fazer da vida o paraíso de justiça, igualdade e esperança para todos e todas.

Lembremo-nos que aquilo que é impossível a todos nós, enquanto seres limitados, aprendendo a cada dia a sermos melhores que o dia que passou, é completamente possível a Deus.


R. P.
Movimento Episcopaz
Anglicanos Pró-diversidade & pela paz
06/11/2014


1 de novembro de 2014

:: Reformas e revoluções ― O que precisamos hoje é o retorno à simplicidade do Evangelho



Neste último 31 de outubro muitos segmentos da Igreja Cristã celebraram o chamado dia da Reforma, um feito que eclodiu em 31/10/1517 quando o então monge agostiniano Martinho Lutero pregou suas 95 teses de protesto no Castelo de Wittenberg, na Alemanha. A partir daí, muita coisa se desdobrou em milhares de perseguições, mortes e uma ruptura que marcaria para sempre a Igreja cristã e, obviamente, toda a Europa, o centro do mundo naqueles idos.

Não desejaria aqui assumir posturas em defesa ou contrárias ao então monge agostiniano. Já li algumas coisas e me surpreendi com a estultice humana em quase divinizar ou praticamente demonizar alguém em razão de seus feitos. Também não me pareceria justo ignorá-las, como alguns confrades meus o fazem em relação à Reforma. Se eu buscar compreender o cenário naquele contexto histórico, se dentro de meu olhar voltado para a denúncia de todas as formas de injustiça, entre as quais a corrupção e o abuso de poder, procurar ser justo não poderei me unir aos opressores que se sentiram “perturbados” com a ousadia de um professor universitário e religioso que questionou algumas práticas distantes da simplicidade do Evangelho do Cristo. Mas é bom que se diga que ele não foi o primeiro a ousar questionar desvios, corrupção e cabresto do rebanho através das teorias meritocráticas. Décadas antes de Lutero o mestre da Universidade de Praga, João Huss [1], já tinha sido condenado por heresia à fogueira pelo Concílio de Constança quando não quis se retratar de seus pontos de vista teológicos que compreendiam Cristo, e não o papa, como o Cabeça da Igreja. Isto para não citar o padre e pré reformista inglês João Wycliff [2]. Todos foram declarados hereges pelo Concílio de Constança.

Mas qual o contexto daquele ato por Martinho, um homem ligado a dois mundos: o acadêmico e o da vida religiosa? Pregar qualquer coisa na porta de um castelo ou catedral era um gesto cultural daquele tempo convidando a comunidade (ou quem estivesse sendo chamado no documento) para um debate. Foi isso que Lutero fez. Ele, na verdade, aproveitava a chegada do frade dominicano João Tetzel a Wittenberg, que tinha sido encarregado de fazer a venda das indulgências (o perdão das penas temporais do pecado) pelo arcebispo Alberto de Brandemburgo.

Parêntese: O arcebispo Alberto de Brandemburgo, diferentemente do que alguns possam pensar, não era um religioso “de carreira” que tinha alcançado o arcebispado depois de anos de pastoreio e sacerdócio. Muito ao contrário. Negociatas e muito jogo de interesse deram o tom do que o levaria ao cargo. O roteiro estaria mais para o que hoje vemos nas indicações de pastas em ministérios e nas lideranças de partido. A família de Alberto, rica e influente, moveu os pauzinhos e, literalmente, comprou a função.

Desde meados do século XIV, cada novo líder do Sacro Império Romano era escolhido por um colégio eleitoral composto de quatro príncipes e três arcebispos. Em 1517, quando houve a eleição de um novo imperador, um dos três arcebispados eleitorais (o de Mainz ou Mogúncia) estava vago. Uma das famílias nobres que participavam desse processo, os Hohenzollern, resolveu tomar para si esse cargo e assim ter mais um voto no colégio eleitoral. Foi aí que um jovem dessa influente família, Alberto, foi escolhido para ser o novo arcebispo. Só que havia dois problemas: ele era leigo e também não tinha a idade mínima exigida pela lei canônica para exercer tal função. O primeiro problema, graças ao dinheiro de sua família, foi “$anado”. A ordenação veio ao estilo “fast food”. Pagou, levou na hora.

Quanto ao impedimento da idade, era necessária uma autorização especial do papa. Aí entra, mais uma vez, a influência de sua família. Foi selado um acordo de cifras milionárias, mas que era um negócio altamente vantajoso para ambas as partes. A nobre família comprou a autorização do papa Leão X mediante um empréstimo feito junto aos banqueiros Fugger, de Augsburgo. Ao mesmo tempo, o papa autorizou o novo arcebispo Alberto de Brandemburgo a fazer uma venda especial de indulgências, dividindo os rendimentos da seguinte maneira: parte serviria para o pagamento do empréstimo feito pela família e a outra parte iria para as obras da Catedral de São Pedro e São Paulo, em Roma. E assim foi feito. Todos lucraram com isso.

Assim que comprado seu título de arcebispo e tão logo suas credenciais chegaram de Roma, instalando-o canonicamente na função, Alberto encarregou o dominicano João Tetzel de fazer a venda das indulgências. É quando aparece pela cidade onde Lutero, um professor renomado na Universidade de Wittenberg, estava.

Justamente naquele ano Lutero dava aulas no que hoje chamaríamos “curso de extensão”, ensinando Romanos e Gálatas, duas epístolas de São Paulo.  Isso certamente lhe deu um novo entendimento a respeito da “justiça de Deus”: ela não era simplesmente uma expressão da severidade de Deus, mas do seu amor que justifica o pecador [torna-o justo, mas não baseado em sacrifícios ou compra de qualquer coisa e sim] mediante a fé em Jesus Cristo [conforme São Paulo frisa no texto em Romanos 1,17].

Estava preparado o cenário do embate. Lutero chamou Tetzel para um debate sobre as razões de algumas coisas que ele próprio já discernia como insuportáveis e de escambo para com a Graça divina. Ele e muito provavelmente seus alunos podiam discernir, mas a maioria ainda não. Lembrando sempre que estamos falando de Idade Média, isto é, de uma sociedade cuja religiosidade era altamente meritória.

Ao fixar suas noventa e cinco teses acadêmicas no dia 31 de outubro de 1517, o monge Lutero queria provocar um debate, discutir o que seria um acinte à lógica, à razão e aos fatos. Comprar alguma coisa para se obter favor da parte de Deus? E num aspecto menos conhecido de alguns: ajudar a pagar uma dívida sem vergonha que a família do arcebispo daquela região tinha feito ao ter comprado a função eclesiástica para seu filho, e, não apenas isso, mas também ajudar a pagar a obra de um projeto audacioso do papa Leão X (a basílica de São Pedro)?

O fato foi que logo uma cópia das noventa e cinco teses do monge Lutero chegou às mãos do arcebispo, o tal que entrou na função “pela janela” graças a ajudazinha da família. Imediatamente uma dessas cópias foi enviada pelo arcebispo a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Hus [1] e afirmou que os concílios e os papas podiam errar.

Penso que o marco do valor do que veio a ser chamado Reforma é inegável. Alguma coisa deveria ser profundamente mudada. Serviu como uma espécie de advertência histórica quanto ao fato de que há limites para o abuso humano feito em nome de Deus.

Sei que estamos precisando de novas advertências igualmente históricas, mas não defendo que precisamos voltar a reformar a Reforma. Isso pra mim é tentativa de remendo em panos velhos. Os dias em que vivemos pedem uma espécie de revolução do Evangelho, anunciando a tempo e fora de tempo a escandalosa Graça de Cristo. Alguém pode duvidar que exista algo mais profundamente revolucionário que anunciar que Deus ama todas as pessoas e que, no tocante ao argumento de suas condutas (como se fosse um “sine qua non”), Ele mesmo estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando a pessoa alguma suas transgressões?

Ora, seja qual for o preço a pagar pela declaração da verdade do Evangelho, chegamos num ponto que não dá mais para brincar com realidades muito sérias e que exigem um comprometimento quanto ao espírito da Palavra. Deus não pode ser motivo de zombaria, de modo que toda forma de perversão do Evangelho a um sistema de poder e controle ou de manipulação da liberdade que se pode ter em Cristo (liberdade para amar os não amáveis, para acolher aqueles a quem ninguém deseja acolher por conta de acordos da moral da maioria).  Quem tiver olhos para enxergar, enxergue. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. E quem tiver alma e fé no Ressuscitado, seja firme e corajoso para romper com todos esses grilhões do medo e da escolha nada justa pela neutralidade diante de tanta opressão e tanta exclusão sendo cometida em nome de Deus!

Da Idade Média pra cá, infelizmente, a coisa se deteriorou – e muito! – dentro da institucionalização da Igreja cristã, que buscou se aliar aos poderes deste mundo para igualmente ser agente de poder visível na Terra, e não poder que emana da Cruz para a salvação de todo aquele que crê. O cenário histórico que levou o monge Lutero a ousar romper com alguns grilhões, infelizmente, é um jardim da infância perto do que hoje se vê por todos os lados com as mais diferentes e corrompidas formas de vender indulgências quando se tem a Graça que rasgou o véu que nos separava de algumas impossibilidades na eternidade.

É óbvio e notório que já não se pode condenar e mandar matar com o descaramento daqueles dias. Mas, por outro lado, o que hoje se faz em nome de Deus e do que chamam “valores do Evangelho” é muito pior, pois agridem não apenas a Palavra Encarnada, mas as próprias luzes de esclarecimento dos tempos atuais. Seguem contrários às evoluções naturais do entendimento, da razão e da ciência, bem como dos costumes, do Direito das famílias, etc...

Hoje, ao se afirmar e propagar que a mulher deva ser submissa ao homem, que não exerça autoridade e sequer fale na igreja, que alguns têm predileção diante de Deus por conta e ordem de sua orientação sexual tida como a “da maioria” ou da “normatividade padrão”, que somente quem apresenta atestado cartorial de casamento pode comungar ao lado de seus semelhantes, não estamos vendendo mais o céu, como João Tetzel fez, a mando do papa Leão X, mas sim a Terra. As nossas indulgências já não têm a ver com a salvação, mas com a prosperidade que se pode alcançar com o luxo, a riqueza e o poder exercido sobre muitos, de preferência com os status dos títulos e posições.

O que se vê é que até hoje as barganhas com Deus não pararam, mas se sofisticaram na sua malignidade, às custas da miséria, da mentira e do amassamento de muitas consciências cativas, gente esfaqueando a alma ou se auto flagelando crendo que Deus não o ama por conta de uma pregação mal-dita. Está diante dos olhos de quem ousar ver: antes mesmo de Lutero, mas considerando apenas a Reforma para cá tudo continua a ser movido pelo amor ao dinheiro e pela doença do poder pelo poder.

Onde está o “soli Deo gloria” (somente a Deus a glória) daqueles reformistas contemporâneos a Lutero? Ter uma casinha branca de varanda com quintal e uma janela para ver o Sol nascer é sonho pueril, quase um acinte a quem deseja seguir o apelo de Mamom com o “tudo isso te darei se prostrado me adorares”, falsificando a mensagem como se pudesse servir a Deus e outros ídolos.

Não, não podemos nos calar. A revolução do Evangelho nas consciências é necessária. Uma tese pra mim já é suficiente: “Deus é amor”. Sim, como diz São João, “aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor(I Jo 4,8). O convite foi cravado na Cruz antes de haver mundo, pois, afinal, bem sabemos que o Agnus Dei foi imolado antes da fundação do mundo (Ap 13,8).

Quem ousará desdizer a decisão do Eterno?

Quem intentará acusação contra os eleitos em seu doce amor?

Por uma revolução do Evangelho, a começar em mim,


R. P.
No dia de todos os Santos, 01/11/2014

[1] João Hus foi um sacerdote e professor da Universidade de Praga, na Boêmia, foi influenciado pelos escritos de Wycliff. Definia a igreja por uma vida semelhante à de Cristo, e não pelos sacramentos. Dizia que todos os eleitos são membros da igreja e que o seu cabeça é Cristo, não o papa. Insistia na autoridade suprema das Escrituras. Hus foi condenado à fogueira pelo Concílio de Constança. 

[2] Professor doutor em Oxford, que foi quem influenciou João Hus e, bem mais tarde, por modos diferentes, Lutero e o próprio rei Henrique VIII.