19 de dezembro de 2013

PLC 122: uma nota de advento ::..





 
Palavras de esperança em meio às notas religiosas contra a diversidade humana ::

Ricardo Pinheiro, 
coordenador do Movimento Episcopaz

O Plenário do Senado Federal aprovou, nesta terça-feira (17/12), com 29 votos favoráveis, 12 contrários e 2 abstenções, requerimento do senador Eduardo Lopes (PRB-RJ) para que o PLC 122/2006 seja apensado, ou seja acrescentado ao projeto de reforma do Código Penal (PLS 236/2012). Na prática, isto significa o fim do projeto, pois, agora, ele passa a tramitar juntamente com a reforma do Código Penal.

Um detalhe interessante digno de nota é que na mesma terça-feira a Comissão Especial do Senado que é responsável pela elaboração do novo projeto do Código Penal aprovou o relatório do senador Pedro Taques (PDT-MT), segundo o qual as referências a “gênero”, “identidade de gênero”, “identidade sexual” ou “orientação sexual” são retiradas, acatando emendas do senador Magno Malta (PR-ES), parlamentar integrante da Frente fundamentalista e que é publicamente conhecido por se opor ao reconhecimento da cidadania para a população LGBT.

O que alguns chamam vitória (para os parlamentares ligados a bases religiosas conservadoras) ou, como claramente se percebe, a derrota (para a sociedade civil e o próprio Estado laico) foi alvo fácil de muitos pronunciamentos, notas e “hastags” pelas redes sociais, sobretudo de importantes segmentos religiosos evangélicos e católicos romanos.

Reconhecido pela teatralidade nas falas neurastênicas (e pelo discurso de  virtuosismos supostamente morais), Silas Malafaia não perdeu oportunidade mal saiu o resultado que golpeou de morte o PLC 122:

“Depois de 7 anos de uma luta árdua contra um projeto de lei que era um verdadeiro lixo moral (...), finalmente o senado deu um basta. Mesmo o PT usando todo o seu poder político para aprovar esta aberração, e tenho eu aqui que ressalvar a atitude corajosa do senador Lindbergh Farias que contrariando a decisão partidária, votou pelo fim do PLC 122/06, ao contrário do senador Valter Pinheiro do PT da Bahia, que é membro da Igreja batista em Salvador, e que muitas vezes eu o apoiei, de maneira covarde se ausentou do plenário na hora da votação. Tenho também que ressaltar o brilhantismo e a luta incansável do senador Magno Malta que foi um gigante para travar o famigerado projeto.”

Dioceses romanas como a de Divinópolis (MG), Osasco (SP), Campos (RJ), Paraíba e São Sebastião do Rio de Janeiro – até onde tivemos informação – também vieram a público no mesmo dia se pronunciar contra o PLC 122 e a favor dos chamados “valores cristãos”, embora não se tenha muita certeza que “valores” são estes e sob que ótica ou ética são reconhecidos como tais.

Considerando que nesta última terça-feira os missionários da Canção Nova conclamavam os fieis pelo twitter numa espécie de guerra santa contra o PLC 122; embora a mesma atitude era igualmente vista entre as mais diversas lideranças evangélicas, observa-se que o momento é propício ao exercício para alguns pingos se encaixarem.

Nem todos os cristãos são conservadores tanto quanto nem todos os cristãos são “curral eclesial” ou militam contra a dignidade das pessoas. Há gente honesta, santa e com olhar generoso sobre cada ser humano.

No meio protestante, bem como no católico romano e em outras religiões católicas (anglicanas e ortodoxas), veem-se pessoas comprometidas com a vida como um todo (e não apenas quando o assunto é aborto ou matrimônio entre pessoas do mesmo sexo), gente que ama e é capaz de andar uma milha a mais para impedir que consciências sejam violadas, que cultos religiosos sejam vilipendiados e que a dignidade dos que estão à margem (porque foram colocados lá!) seja violentada de alguma forma (seja pela denúncia às desigualdades sociais, à miséria, ao trabalho escravo, à exploração sexual, à pedofilia, à homofobia e transfobia, etc).

Infelizmente, no entanto, alguns que exercem a liderança se manifestarão publicamente contra tudo o que se levante contrário ou diferenciado aos standards pré-estabelecidos (formatados) por eles mesmos e quem lhes represente, institucionalmente falando.

A pauta do PLC 122, por exemplo, foi um típico caso de afronta ao padrão moral e ético vigentes naqueles mundos dominados pelo olhar estreito da religião. Um PLC que assegure que nenhuma pessoa poderá ser menosprezada ou atingida em sua dignidade, em razão de sua imutável orientação sexual (como se houvesse botãozinho “Liga” ou “Desliga”) só é encarado como “monstro de oito cabeças” por alguém que sobreviva sob a máscara do virtuosismo moral mais primitivo, isto é, que nem sequer considere qualquer outro além do “si-mesmo”. Ora, o “si-mesmo” não é nada além de um caminho da carne, o qual se esconde sob o disfarce da santidade moral, mas não consegue esconder a perversão do ser, especialmente na forma do orgulho e da vaidade de sua falsa superioridade.

Lendo as notas publicadas por algumas lideranças romanas, é de se imaginar como será árdua a tarefa de uma figura tão simpática quanto verdadeiramente cristã, como parece ser o papa Francisco, na reformulação de sua igreja, se é realmente fato que a proposta é mudar sobretudo o Magistério (coisa que nenhum papa o fez, pois se diz no Direito Canônico que é imutável). Enquanto isso considerando uma suposta e histórica possibilidade de mudança no Magistério vamos assistindo espetáculos cuja mise-en-scene se dá pelos hastags contra aqueles que desejam acabar com “os valores cristãos” e derrotar a Igreja, mas também por notas como estas:

 "É meu dever de pastor esclarecer aos cristãos católicos e à população sobre a lei natural e os Mandamentos da Lei de Deus (lei positiva), ao tempo em que expresso o meu absoluto e total repúdio ao PLC 122 e seus substitutivos que incluem a homofobia ao Plano Nacional de Educação... Ora, o que alguns grupos de pressão pretendem com a lei da homofobia é impor um totalitarismo anticristão, em nome da ideologia de gênero e, com este, provocar ódio discriminatório, repudiado pela sociedade, adepta dos valores cristãos (...).

 Concluo afirmando que a lei da homofobia tenta proibir o sagrado direito que as Igrejas cristãs têm, em sua missão outorgada por Cristo, de fazer discípulos e de ensinar o que Ele praticou, ensinou, como comportamento ético e moral.”


João Pessoa (PB), 17 de dezembro de 2013.

Aldo di Cillo Pagotto,arcebispo Metropolitano da Paraíba


No mesmo dia, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, em nota assinada pelo arcebispo, D. Orani Tempesta, e todos os seus bispos auxiliares e vigários episcopais, púbica em suas redes sociais a posição contrária em relação ao PLC 122, afirmando que a “função eclesial e social da família [está] fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher.”

E o que os anglicanos poderiam e deveriam ter falado, mormente num momento em que muita gente se encontra desesperançada com a possibilidade de nos tornarmos uma democracia vendida aos toma-lá-dá-cás dos segmentos fundamentalistas (católicos e evangélicos) e a pressão que exercem sobre o Congresso? Afinal, estamos no advento. Até onde os cristãos entendemos é época de renovar a esperança, pois o Cristo dos publicanos, das putas e de todos os marginalizados de Nazaré está vindo.

Esperança é a essencialidade do Evangelho, a Grande Mensagem de Salvação (GMS) enviada para dentro do ser de todo aquele que crê. Evangelho que é a  GMS de esperança para a presente existência e para a vida que é sem fim. Esperança mesmo que o mundo desabe, que deputados ou senadores se dizendo cristãos manobrem contra a dignidade do ser humano; que pastores, bispos e arcebispos rabisquem notas de repúdio a toda forma que ousa ser “fora-da-fôrma” (porque ensinam que o inferno é dos diferentes!) crendo com isso que estão dando glórias a Deus e "salvando a célula-mater da sociedade" da eversão moral. Esperança, que é construída como caminho histórico existencial em cada um de nós, o qual começa na fé. Ora, pela fé ousamos e exultamos de esperança, ainda que diante do absurdo da existência que se levanta contra a diversidade da Criação.


E já que falamos de fé ao falar de esperança, é por ela que mergulhamos nos plenários da Graça na qual estamos firmes e saímos sempre vencedores, ainda que a gente só entenda lá na frente... quem sabe, quando muitos brasileiros se conscientizarem que uma urna eleitoral pode ser o grito dos excluídos.  Assim, aprendemos a nos gloriar na esperança da Glória de Deus que chegará  para todos nós que estamos engravidados pelos sonhos de um país mais democrático, mais plural, mais sensível às estatísticas de morte das vítimas tombadas pelo ódio e pelos discursos religiosos de “uma só forma de família” e de “uma só identidade de gênero”.



Firmados no Cristo de pés descalços e mãos calejadas por tanto amar, o Evangelho nos convida a prosseguir ao som da esperança. Um dia a dignidade de todas as pessoas será defendida por todo aquele e aquela que se disserem cristãos, mas não apenas com palavras e sim com acolhimento. Famigerada será toda tentativa de desconstrução do Caminho, da Verdade e da Vida na individuação humana (fruto da diversidade) para se tornar concurso de aparências e baile de máscaras em favor de um "ethos" que não se sustenta diante do Escândalo da Cruz. Sim sim; não não é que sairá dos lábios de quem, verdadeiramente, defenderá a vida (com todas as implicações indissociáveis a ela, da cor da pele à orientação sexual). Nada de abstenções.

Fontes: 






17 de dezembro de 2013

No Evangelho uma nova maneira de viver a vida ::..





:: Vida nova em respeito à diversidade e proclamando a justiça e a paz no viver ::

O Evangelho é o Bem de Deus para o dia chamado Hoje.

O Evangelho é a Boa Nova, a Grande Informação que alguém poderia receber, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens e das mulheres, e pôs em nossos lábios a Mensagem da Reconciliação... (II Co. 5.19).

O Evangelho é, portanto, a Mensagem que revoluciona o ser através de uma nova maneira de pensar a vida e, por consequência, uma nova maneira de viver a experiência da presença de Deus no viver. Isto porque o Evangelho gera paz no ser, desamedronta e liberta mentes cativas do medo da morte e da incerteza da vida eterna. É por isso que quem crer está livre, e pronto para começar a andar na paz. Ora, para se ter prazer em anunciar COM A VIDA o verdadeiro Evangelho — sem medo, sem ameaça, sem barganhas a fazer, e sem galardão quantitativo, mas apenas qualitativo —, só se o coração estiver grato e cheio de amor.

É por isso que ousamos anunciar o Evangelho pelo BEM que já nos fez, e isto naturalmente enquanto vivemos e cremos que TODAS AS PESSOAS são alvo do amor de Deus, que transforma mentes e corações, traz sentido ao viver e gratidão na ponta dos lábios. É por isso que cremos e anunciamos que homens e mulheres continuarão homens e mulheres, negros e brancos continuarão negros e brancos, hetero e homoafetivos continuarão hetero e homoafetivos, mas que seus coraões e mentes serão inundados pela irrevogável certeza fruto da fé de que são filhos e filhas de Deus, amados antes de haver mundo e salvos (da morte, da lei, das listas, dos medos e de si mesmo) mediante à resposta de fé à Obra da Cruz.

Somos anglicanos, mas, pela Graça de Deus, contamos com amigos e aliados que IGUALMENTE são pró-diversidade e a favor da paz.

Se isto NÃO FOR CERTEZA no coração, fruto da fé, continuaremos dando boas vindas a todos que nos visitarem, assim como pediremos que não curtam nossa página enquanto o coração não for inundado do olhar de Graça, que ressignifica todas as coisas A PARTIR DE CRISTO e de sua forma humana, misericordiosa, graciosa, inclusiva, diversa, amorosa de ser Deus encarnado.

Por fim, para meditação de todos e todas que nos visitam:


“No essencial, a unidade; na dúvida, a liberdade; em tudo, a caridade.”

— Santo Agostinho, bispo de Hipona

 “A Igreja está no mundo e sua tarefa é ser fermento, luz e sal em meio à sociedade para que se dissipem as trevas e Cristo nos revele o Reinado de Deus. A realidade social, política, cultural e religiosa se acha em acelerado ritmo de mutação. Diante disto, escutamos o chamado para testemunhar a presença de Cristo no mundo... Entre os muitos desafios teológicos, pastorais, canônicos e organizacionais, chama-nos a atenção a questão da união de pessoas homoafetivas. Diante disso, a Câmara dos Bispos já se manifestou duas vezes, por meio de cartas pastorais, nas quais se afirmou a legitimidade, seriedade e relevância pastoral do tema. Também ao longo dos últimos anos, diversos materiais foram produzidos. O que nos falta é um processo de reflexão pastoral amplo... oferecendo a oportunidade de que o tema seja apropriado, refletido e decidido desde a base da Igreja.”

— Carta Pastoral da Câmara dos Bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Rio de Janeiro, novembro de 2013).

“Olhar o outro como seu semelhante significa que ele tem os mesmos direitos; que ele pode e deve gozar a vida tal como você o faz.”

— Rev. Pe. Eduardo Costa, homilia na Paróquia da Santíssima Trindade - Rio de Janeiro (10/11/2013).


“Se ficarmos neutros perante uma injustiça, escolhemos o lado do opressor. Se o elefante está pisando o rabo do camundongo e nós nos pronunciamos neutros, com certeza o camundongo não apreciará tal neutralidade... Nós lutamos contra o apartheid porque estávamos sendo acusados de algo que não podíamos fazer nada sobre. É o mesmo com a homossexualidade. A orientação é dada, não é uma questão de escolha. Seria louco alguém escolher ser gay com a homofobia que temos hoje.”

— Arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz


“Muitas vezes falamos da “amplitude do entendimento anglicano”. Se por “amplitude do entendimento” queremos dizer a prioridade da busca por uma dialética sobre a precisão e o encerramento imediato, então estamos falando da consciência anglicana no seu melhor entendimento."

— Urban Tigner Holmes, What Is Anglicanism?

“Peço suas orações para que busquemos com constância discernir a mente e o coração de Cristo no que se refere ao cuidado integral de todos os membros do seu Corpo, a Igreja. Por favor, saibam queridos amigos de minha própria esperança que, embora nunca cheguemos a consenso sobre esta questão da bênção de uniões do mesmo sexo, procuraremos a capacidade de viver em meio a diferença de uma forma que seja marcada pela Graça e pela generosidade de espírito, uns para com os outros. Estou absolutamente convencido que este assunto não deveria ser uma questão de quebra de comunhão, como o Arcebispo de Cantuária afirmou, ‘das tensões que nos assaltam, a vida da Comunhão é muito mais ampla e mais rica que todas estas questões sozinhas’.”

— Arcebispo Fred Hiltz, Carta â Câmara dos Bispos da Igreja Anglicana do Canadá (2008)


Por Cristo, em Cristo e com Cristo, na Unidade do Espírito Santo, pela certeza nascida da fé, como resposta ao carinho do amor de Deus que nos acolhe e santifica todos os dias,


R. P.
MOVIMENTO EPISCOPAZ
Anglicanos pró-diversidade & pela paz
Advento, 2013


Nota: créditos das imagens para Diocese Episcopal da Califórnia (presença do bispo diocesano na parada da diversidade em São Francisco, 2013) e grupo Dança Sem Fronteiras (novembro, 2013).

Advento: o Amor e a Justiça de Deus estão a caminho! ::..





Jesus Cristo é a manifestação do Amor e da Justiça de Deus.

O Amor de Deus não tem limites. Mesmo.

O Amor de Deus ama até quem não crê que Ele ame.

O Amor de Deus é de fato a única realidade que nos assombra. E como faz bem amar essa assombração!

O Amor de Deus não é uma concessão para se tentar a Deus, pra ver até onde Ele vai. Fato é que Ele vai, e vai sempre além; às vezes a gente é que não chega!

Assim, que todos saibam, Deus não está em questão. O Seu Amor é... e é bem mais além, bem mais profundo, bem mais assombroso e escandaloso que qualquer um de nós possamos imaginar!

A Justiça de Deus não é conforme os homens e mulheres compreendem acerca de “justiça”; segundo os quais é a suposta conseqüência da “obediência” fruto do “comportamentalismo”. Não! Não há barganhas a fazer com Deus!

A Justiça de Deus se aplica segundo sua Graça que nos considerou justos por decisão com implicações eternas... E ISTO NÃO VEM DE VÓS, assegura o espírito do evangelho presente em Paulo quando escreve aos efésios. Eis por que injustos – segundo o mesmo espírito – são todos os que não foram justificados, pois justo MESMO ninguém é... Não há UM sequer. 

Injustos são todos os que não voltam justificados para suas respectivas casas, mesmo depois da oração-currículo-comparação (Lucas 18, 9-14). Portanto, injusto são todos e todas que dão graças a Deus de "não ser como este outro!"

A Justiça de Deus se revela, pela fé, de que “o Espírito do Eterno, o Senhor, está sobre mim porque o Eterno me ungiu. Ele me enviou para pregar as Boas Novas aos pobres, curar os de coração partido, anunciar liberdade aos cativos e o perdão a todos os prisioneiros. 

O Eterno me enviou para anunciar o ano de Sua Graça – a celebração da data em que Deus já destruiu nossos inimigos – e consolar todos os que choram... o nome deles [dos que creram, pela fé, que Nele foram tornados “justiça de Deus”] será mudado para “Carvalhos de Justiça”, plantados pelo Eterno para mostrar a todos a sua glória.” [*]

Acerca destas palavras do profeta Isaías, Jesus diz: "Vocês acabam de presenciar o cumprimento dessa profecia!". [**]

Assim, neste tempo de Advento a Igreja proclama: Amor que a ninguém exclui e Justiça que a todos nivelou em Sua Graça, venham sobre o Brasil, sobre cada cidade, sobre cada vilarejo, sobre cada vida!

Ora vem, Senhor Jesus!


[*] Livro do profeta Isaías, cap. 61, fragmentos dos versos 1 a 3, versão “A Mensagem”.

[**] Evangelho segundo São Lucas 4,21, versão "A Mensagem".


R. P.
MOVIMENTO EPISCOPAZ
Anglicanos pró-diversidade & pela paz


14 de dezembro de 2013

Só depende de cada um de nós ::..


 
 No período do Advento a Igreja aguarda esperançosa a divinal Revelação de seu amor por cada um de nós, a saber, Jesus Cristo. É justamente em Jesus que o clímax da proclamação do Evangelho ocorre, porquanto é encarnada em sua trajetória, nos gestos de acolhimento, nos toques de aproximação, na quebra de barreiras (ao falar com mulheres que não eram de sua parentela; ao pisar na terra de "imundos" como Samaria; ao comer na casa de gente que não cria da mesma forma que os judeus; etc), nas manifestações humanas mais simples como sorrisos e choros, mas também na alegria sincera de estar no meio do povo, povo sem rótulo, sem etiquetas morais, étnicas ou religiosas, apenas povo alvo de seu amor, oferecendo-lhes a extraordinária Informação (a Boa Nova): "Deus quis se reconciliar e de fato se reconciliou com cada um de vocês, creiam!".

Anunciar a mesma Informação que Jesus o fez a todas as pessoas, sem exceção e sem o pecado de querer fazer delas nossos clones, é a Missão da Igreja. Esta é, por assim dizer, nas palavras do arcebispo Hiltz, a 'obrigação moral' de cada um de nós, Igreja do Senhor. Depende de quem, então? Só depende de mim-e-você!

Equipe @ Episcopaz

O Evangelho encarnado em ações ::..

Nelson Mandela morreu. Isso é o de menos. Ele tinha 95 anos!

"O QUE IMPORTA É QUE ELE TENHA VIVIDO COMO VIVEU!"
 
 

Nossa geração foi presenteada com ser humano que, tendo existido no lugar errado, com a cor "errada", na época errada, fez o melhor que podia com isso "tudo" que tinha! Ninguém escolhe nascer negro na África do Sul do Apartheid, mas cada um escolhe o que faz com a vida que lhe é dada! Francamente, conhecendo essa história, penso que ele fez o impossível, junto a tantos outros lutadores anônimos (já que ninguém faz nada sozinho...). Mas de tempos em tempos, sei que Deus reserva alguns pra encarnar a Boa Notícia de que a paz e o perdão ainda reinarão!

Marcelo Quintela

5 de dezembro de 2013

Cartas entre amigos - Palavras de um profeta da inclusão ao Movimento Episcopaz e ao Palavra Aberta



“Voltem e contem o que vocês estão ouvindo e vendo”  
(Mt 11.4)

Carlos Eduardo Calvani

:: Para Movimentos Episcopaz e Palavra Aberta ::



Estava lendo os textos do Advento e preparando meus estudos e meditações para a Capela da Inclusão e reli o belo texto de Mateus 11, previsto para o 3º. Domingo do Advento.

Lembrei-me de vocês e de toda a ativa movimentação que ouve nas semanas anteriores ao Sínodo, com vistas a suscitar o debate sobre o Matrimônio Igualitário na IEAB.Nós nos envolvemos bastante ,cada qual com seu dom. Trocamos idéias pela internet. Soltamos frases e cartazes no facebook. Divulgamos textos.

Valeu à pena?

Parece que alguns se sentiram frustrados pelo modo como o assunto foi acolhido na reunião Sinodal. Para alguns foi um acolhimento frio e formal. Eu não estava presente e não posso dizer o assunto foi tratado lá.

Mas valeu à pena, sim!. Um passo foi dado. O Sínodo de certo modo ratificou uma decisão do Sínodo anterior, de iniciar um amplo processo de estudo sobre questões de sexualidade, gênero, família, casamento, etc.

Aliás, toda movimentação pré-Sínodo motivou até a inserção de um parágrafo na Carta Pastoral da Câmara dos Bispos. Sem o movimento que surgiu disperso, aqui e ali, talvez este parágrafo nem mesmo estivesse previsto.

Sim, valeu à pena! Reli o meu texto “Instituição e movimentos no dinamismo da Igreja”, divulgado na semana anterior ao Sínodo, e reafirmo que continua valendo a pena. A conquista de espaços e a garantia de certos direitos é lenta. Exige persistência, constância, firmeza, insistência, tal como “água mole em pedra dura...”

Nessas semanas pós-Sínodo houve uma diminuição de postagens na rede social do facebook. Espero que seja apenas ressaca e cansaço. Afinal, dispendemos muitas de nossas energias em um momento em que era necessário fazer isso. Agora é momento de descansar um pouco, renovar as forças, etc.

Volto ao texto de Mateus para dizer que valeu a pena, sim.

João Batista, o profeta impetuoso, robusto, acostumado aos desertos agora era um homem fragilizado, temeroso e cheio de dúvidas. Era um preso político. Limitado em seus movimentos e totalmente à mercê dos podres-poderes da corte.

João estava passando por uma crise de fé.

É compreensível. Sua vida fora dedicada a anunciar o Cristo. Mas talvez a mentalidade apocalíptica da época lhe impregnara de certo imediatismo. Talvez ele não esperasse sua própria prisão, injusta, por sinal. Nessas horas é mais que compreensível perguntar: “valeu à pena?”

            Vale a pena tanto engajamento nos movimentos pelos direitos humanos? Ou pela Reforma Agrária? Ou pelos direitos indígenas? Ou pelos direitos das pessoas classificadas e rotuladas como LGBT? Todos esses sempre foram movimentos marginais e quando nos envolvemos neles recebemos oposição até mesmo de familiares. Vale à pena se após tudo isso, somos jogados ao cárcere do ostracismo?

            A resposta de Jesus não é apenas doutrinária ou institucional. A resposta não está nos muitos documentos da Comunhão Anglicana. Sim, será bom conhecê-los, divulgá-los e utilizá-los, quando necessário.

Mas a resposta da fé indicada por Jesus não aponta para papéis, livros ou documentos, mas para o que tem acontecido na vida:    “Vá e veja o que Deus tem feito”:

            Pessoas antes isoladas são reintegradas ao convívio da comunidade;

       Pessoas recuperam a esperança e a possibilidade da vivência da fé e da espiritualidade em comunidades inclusivas;

Pessoas recuperam a auto-estima e o senso de que sua dignidade é reconhecida;

Pessoas sabem que não estão agora sozinhas, mas que há um grupo em uma Igreja específica, que os apóia e que nessa Igreja elas podem se reintegrar;

Vão, e contem o que vocês têm visto e ouvido:

Gays e lésbicas, pouco a pouco, assumem cargos de liderança em muitas de nossas comunidades;

Gays e lésbicas aos poucos saem do armário mas não abandonam a Igreja, afinal ela é seu lar... sim, alguns ainda se assumem timidamente, mas já é um avanço e é preciso respeitar os motivos particulares dessa timidez.

Na palestra feita por Gustavo Gutiérrez na Conferência de Lambeth 1988, quando foi convidado a falar sobre a Teologia da Libertação e os pobrs, ele disse aos bispos ali presentes – e com muita simplicidade e espiritualidade, algo muito profundo teologicamente e que tem significativas relações com as causas que defendemos. Para compreender isso é preciso dar o salto do conceito sociológico “pobre” para o conceito sócio-cultural de “excluídos”:

Comprometemo-nos com os pobres quando temos amigos entre eles. Não estou caindo numa postura romântica para falar sobre os pobrs. Até pouco tempo eu não conseguia entender bem esta questão. Agora, esotu convencido.t er amigos é compartilhar as nossas vidas com eles e considerá-los iguais a nós. O amor só é possível entre iguais. Quando não consideramos alguém no nosso mesmo nível, não podemos amar essa pessoa. Podemos nos compadecer dela, mas não a amamos. Ter amigos entre os pobres não é apenas questão de interesse humano: é o teste da autenticidade de nosso compromisso (...)

“Qual a razão da opção preferencial pelos pobres? Ela não vem da análise social. A análise social é útil para nos ajudar a entender a situação concreta em que vivem os pobres, mas não é a razão principal do nosso compromisso. Tampouco se trata de uma compaixão humana: ela é importante e nos ajuda, mas não é a verdadeira razão de nosso compromisso. Nem é a nossa experiência direta com a pobreza 9...)a razão é simplesmente porque sou cristão. Deus é a razão principal deste compromisso, e não os pobres. (...)

A gente poderia dizer que os pobres são pessoas belas, tão boas, tão generosas... mas não posso dizer que todos os pobres são bons. É por isso que nosso compromisso com os pobres não é porque eles sejam bons, mas porque Deus é bom. E porque Deus é bom, Ele prefere os mais humildes da terra”

(Gustavo Gutiérrez – “Como dizer aos pobres que Deus lhes ama?” (tradução do revd. Jaci Maraschin) – Estudos de Religião n. 6., IMS, 1989, pg. 39-40)

Por tudo isso, sim, vale a pena... há sinais do Reino.

A legitimidade das causas que defendemos não está apenas  na teologia, na instituição, nos documentos, mas na espiritualidade, na compreensão do o amor de Deus e no que vemos e ouvimos  - Cegos vêem... surdos ouvem...

            Após a resposta de Jesus não mais qualquer menção sobre o modo como João Batista e seu grupo de discípulos reagiram aos sinais apontados por Jesus. Não sabemos se eles se convenceram com essa resposta, um tanto vaga e pouco objetiva.

Lá pra frente, no mesmo capítulo, a perícope diz:

“O Reino dos Céus avança com poder e os que se esforçam apoderam-se nele”. (Mt 11.12).

Essa é uma das possíveis traduções para esse versículo difícil. Alguns estudiosos supõem-se tratar-se da violência agressiva dos que pretendiam estabelecer o Reino à força, tal como os zelotes, que estavam ligados, em parte aos essênios;

Outros, porém, preferem traduzi-lo enfatizando que o Reino certamente está se instalando com poder.

Parece-me que esse é um sentido bastante coerente com o momento de crise vivido por João Batista e por muitos hoje:  “vejam: o Reino está se estabelecendo poderosamente, e os que participam desse avanço se empoderam nele, ou seja, no próprio ato de participar.”

Recebam meu abraço, enviado daqui das margens, e junto com ele, minhas orações e apoio,

Vosso colega e servo,

 Carlos Eduardo Calvani


Resposta do Movimento Episcopaz:






Caro amigo, Rev. Carlos Eduardo Calvani,

Graça como verdade inabalável no ser e Paz como realidade que se faz presente no viver!

A experiência nos demonstra que o Evangelho precisa ser encarnado, vestido com consciência e experimentado na dinâmica do dia a dia em atos concretos. Leio tuas palavras e recebo delas um “sussurro de Deus”, que é sempre mais forte que o mais alto grito dos seres humanos. Tuas letras e o conjunto delas se elevam como fumaça de incenso, dados não apenas o profetismo quanto a sacralidade do que nos entusiasma [en/in + Theo + anima = põe Deus dentro da alma] a fé. Em nome de nossa pastoral, meu irmão, muito obrigado!

Invariavelmente, entre algumas observações e a perícope instalada nas tuas palavras, identifiquei nelas o cerne do “recado de Jesus” aos discípulos de João e aos discípulos que, mesmo não vendo, cremos:   

“Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos veem, e os coxos  andam... aos pobres é anunciado o Evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim  (Mateus 11).

Felizes todas as pessoas que não se escandalizarem com o modo divino de Jesus amar os diferentes, de tratá-los com igualdade e justiça, de oferecer-lhes túnicas, sandálias e aneis novos, isto é, dignificar-lhes! Felizes os que seguirem-No, ainda que alguns se escandalizem com o amor que a todos ama (porque o amor não sabe não amar)!

“Todo aquele que ama nasceu de Deus... todo aquele que não ama [não importa quem seja], não conhece a Deus”, registram e nos calam as palavras iluminadas da epístola de João.

Não queremos parar de amar, Rev. Calvani!

Não queremos parar de falar das coisas que vimos e ouvimos, a partir de nós, “transportados das trevas para o reino do Filho de seu amor”, conforme Paulo escreve aos Colossenses. Não queremos parar, desistir ou retroceder porque, tal como Simão Pedro, o caminho da Salvação tem nome e nos chama para uma Missão contra os poderosos deste mundo e a favor de todos e todas que proclamam as Boas Novas: “Senhor, para quem iremos nós? Só Tu tens as palavras de vida eterna.”

Não queremos porque o Santo Evangelho não se confunde, é tal como o amor: uma vez provado, mesmo em meio a lutas e dificuldades, nas alegrias e nos momentos de perplexidade, não há nada mais saboroso para o alimento da vida. E justamente porque não se confunde, porque é a Missão da Igreja, ousamos perguntar em todas as direções:

Que Evangelho é este se não desce ao encontro dos marginalizados? Que Evangelho é esse se não lava os pés calejados do trabalhador e da trabalhadora, ainda que os tais sejam “informais”, não tenham carteira assinada ou, ainda, vivam espremidos nos saltos altos na “batalha da noite” sem dignidade alguma conferida pelo olhar perverso das pessoas? Que Evangelho é esse que não trata o louvor das crianças e de todos os pequeninos como perfeito louvor? Que Evangelho é esse que desnivela pessoas em categorias, em grupos e subgrupos, por horas trabalhadas, por diplomas recebidos, por vestes, por piercings, por gostos musicais, pelo sotaque denunciador da origem, pela incidência da melanina na pele, pervertendo a ilógica parábola dos trabalhadores da vinha?

Não há outro Evangelho senão o de Cristo, o qual vai ao encontro e age, e traz pra perto, e cura as feridas, e de graça dá porque de graça recebe. Inspirados neste Evangelho prosseguiremos. Todos os dias anunciaremos acerca daquilo que temos visto e provado. Em Sínodo (e bem sabemos que haverá um extraordinário daqui a dois anos), em concílio, em assembleias, em consultas, em reuniões, em conversas, em marchas, em passeatas, em campanhas, em evangelizações pelas ruas e pelas redes sociais, indo e sendo com marcas gravadas no coração e em estampas pintadas nas camisetas, em panfletos pelos ônibus, trens e metrôs, a tempo e fora de tempo, continuaremos nos engravidando do amor de Deus e parindo certezas apaixonadas de como nada nos separará Dele e como Ele mesmo já nos tornou um só (em direitos e deveres diante de sua Graça). Em Cristo, no kayrós de Deus, faremos proezas!

A Igreja e, por extensão, todos os Movimentos que nela nascem e para o povo de Deus se voltam em serviço e caridade é a encarnação do Bom Samaritano. Perceba, Rev. Calvani, a provocativa e extraordinária antítese: “bom” e “samaritano”. Se já não soa mais pra muita gente com o mesmo peso proposto por Jesus, ousamos ressignificar e dizer "bom" e "travesti", como o mestre e doutor Rubem Alves o fez (ALVES, Rubem. Perguntaram-me se acredito em Deus. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007). A Igreja é santa e pecadora. Eis por que a Igreja somos cada um de nós que cremos, sendo quem somos, oriundos de todas as partes, pois são estes que o Pai chama para seus adoradores...

Como o bispo Duleep De Chickera disse em seu profético sermão na Conferência de Lambeth:

“A Igreja é chamada para ser uma comunhão inclusiva, onde existe espaço igualitário a toda e qualquer pessoa, independentemente de cor, gênero, habilidade, orientação sexual. Unidade em meio à diversidade é uma respeitosa Tradição Anglicana – uma forma de espiritualidade, se gostariam de saber, através da qual reforçamos toda a humildade por causa de Cristo e do seu Evangelho... Falamos de justiça e (...) falamos em nome daqueles que não falam por si.”

[Ref.: http://www.lambethconference.org]

Não é fácil, amigo e irmão. Não é fácil nadar contra o curso deste mundo-sistema, embora esta seja a ordem natural pra quem “nasce de novo”, pra quem, entre acertos e limites de nossa humanidade, ousa enxergar a vida com o doce olhar de Jesus e Nele se empodera para continuar levando adiante o Seu reino. Assim, é nesta ousadia que permaneceremos como faróis neste mundo, refletindo a luz que não é nossa, mas de nosso Cristo e Senhor.

Queremos continuar vendo o reino de Deus acontecer. Não desistiremos enquanto houver um Jesus aqui e acolá aguardando pão, roupa, visita no cárcere, autorização para casar e ter os mesmos direitos... continuaremos vendo Jesus aqui e acolá, em rostos, em abraços, em manifestações de coragem, de carinho e também em palavras como as suas!

Receba nossa admiração, nossa gratidão e o convite para caminhar mais uma milha na Igreja que, pela Graça, o Senhor nos chamou! Ei-Lo aí mesmo, Rev. Calvani, dentro de vós!


Ricardo Pinheiro
Coordenador
05/12/2013

1 de dezembro de 2013

1º de dezembro e a luta pela vida ::..







Oficiante:

O corpo da humanidade tem HIV. A beleza do mundo está desfigurada não só por doença, mas por preconceito e intolerância; por medo do desconhecido e o ódio dos diferentes e por uma distribuição injusta dos recursos.

Rezemos por todos os homens, mulheres e crianças que vivem com HIV em todo o mundo.

Por aqueles que no mundo em desenvolvimento, onde as drogas eficazes ainda não estão prontamente disponíveis.

Por aqueles cujas vidas são ofuscadas pelo estigma de sua condição.

Pelos órfãos, pelos enlutados e por todos aqueles que estão isolados e com medo, rezemos ao Senhor: Ó Deus de compaixão...

Todos:

Fortaleça e sustenta-lhes

Oficiante:

Rezemos por todas as organizações e por todos os indivíduos que buscam apoiar pessoas infectadas pelo HIV.

Pelas agências humanitárias e todos os envolvidos no desenvolvimento do mundo.

Por aqueles de todos os credos e aqueles de nenhuma fé que alcancem em amor o seu próximo, rezemos ao Senhor: Ó Deus de compaixão...

Todos:

Fortaleça e sustenta-lhes

Oficiante:

Lembremo-nos agora de todos aqueles que morreram como resultado do vírus HIVAIDS, especialmente aqueles a quem nós um dia amamos e ainda amamos. Rezemos também por aqueles indivíduos cujos nomes e necessidades estão em nossos corações neste momento...

Oficiante:

Deus Santo e Compassivo, ouça as orações que oferecemos; abençoe esses pelos quais rezamos; fortaleça-nos e mantenha-nos em nossa luta contra o vírus HIV e ajuda-nos a servir uns aos outros num espírito de abertura, generosidade e amor.

Todos:

Amém

NOTA: A oração completa (no idioma original, inglês) foi retirada da apostila “Worship Resources for World AIDS Day