:: Movimento Episcopaz entrevistado pela Revista Mix Brasil ::..


:: Entrevista com o coordenador do “Movimento Episcopaz – Anglicanos pró-diversidade e pela paz”, Pastoral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), o advogado carioca Ricardo Pinheiro ::

21/01/2014
Por Márcio Retamero

1 – Ricardo, o que é o Episcopaz e quais os objetivos desta Pastoral?


O Episcopaz é o movimento de anglicanos e aliados pró-diversidade e pela paz; que, por sua vez, se reúne como uma pastoral de direitos humanos ligada à paróquia da Santíssima Trindade na Diocese Anglicana do Rio de Janeiro. Justamente porque se abraça o propósito em favor dos direitos humanos é que diversas frentes em prol das minorias fazem parte da atuação da pastoral. A questão da inclusão numa perspectiva ligada à diversidade sexual, por exemplo, é uma dessas frentes.

Pra se falar dos objetivos da pastoral convém resgatar a força do termo. Pastoral vem de Pastoreio.  Por isso é importante destacar que uma pastoral objetiva fazer o que Jesus, o Bom Pastor dos excluídos e marginalizados, fez. É continuar sua missão no chão desta existência. De que forma? Continuidade da missão em três caminhos de ação: participar efetivamente da construção de uma sociedade mais igualitária, temperar a existência com os sabores da Graça de Deus que a ninguém exclui e denunciar todas as formas de injustiça e opressão, sobretudo aquelas feitas no paradoxo da religião que não religa nada. Obviamente, tudo isso sem perder o foco da semeadura que se realiza dentro da dimensão de uma pastoral (catequese, profetismo, evangelização, cuidado pastoral e iniciativas ecumênicas).


2 – Como uma Pastoral de direitos humanos, mas com um viés em prol da diversidade até no próprio nome, pode-se dizer que o Episcopaz é procurado por LGBTs que não se sentem acolhidos na sua  espiritualidade em suas igrejas?


Sim, bastante. Faz parte da missão da pastoral o anúncio do Evangelho em respeito à dignidade de todas as pessoas. Considerando as igrejas conservadoras, a procura se dá não apenas por aqueles e aquelas não acolhidos na espiritualidade, mas também pelos rejeitados na comunhão e nas dinâmicas da estrutura eclesial. E ainda há aqueles que até são bem acolhidos em suas comunidades religiosas mas nos procuram pedindo ajuda para lidar com a família, noticiando relatos de exclusão e desrespeito, etc.


3 -  Quais os eventos e os objetivos que o Movimento Episcopaz já promoveu?

Bom, para uma pastoral que nasce em 2013 e que tem como patronos o arcanjo São Miguel e todos os anjos, até que já derrotamos bastante dragões [risos]. O começo é sempre complicado porque basicamente se parte do zero. Falar de anglicanismo no Brasil é quase uma novidade, apesar de sua existência por aqui há mais de um século atrás. Falar de anglicanismo na terra de Sua Majestade, a rainha Elizabeth II, já é “common sense”.  Então, o desafio inicial foi apresentar a Comunhão Anglicana e sua histórica relação com as questões de direitos humanos. O último sermão de Martin Luther King Jr foi numa igreja episcopal (anglicana). Muito antes da 2ª Guerra Mundial, a primeira igreja a defender os métodos contraceptivos foi a Anglicana que mudou sua política de natalidade em 1930, uma época de muitos tabus sexuais. Naquela que ficou conhecida como a pior tragédia com LGBTs à época (o incêndio do Upstairs Lounge em Nova Orleans), foi a atitude solidária do padre Bill Richardson, um clérigo anglicano, que cedia o salão paroquial de sua paróquia para reuniões com LGBTs cristãos e que mais tarde resolveram alugar uma sala no segundo andar de um prédio naquela cidade, que frustrou a intolerância de uma cidade inteira ao abrir sua igreja para o velório dos corpos, em 1973. O primeiro bispo abertamente gay de uma Igreja de sucessão apostólica foi Gene Robinson, na diocese (episcopal) de New Hampshire. Esses exemplos são importantes porque as pessoas conhecem pouco a história subversivamente vanguardista do anglicanismo, de seu ethos inclusivo. 


Então, depois de investir pesado nessa questão dentro da pastoral, passamos a tratar de temas não menos relevantes como os perigos do avanço do fundamentalismo religioso, contando com ativistas LGBTs nos nossos encontros, a participação no evento do Diversidade Católica na Uni-Rio sobre homossexuais na Igreja, mas poderia também citar o amplo debate que fizemos sobre o matrimônio igualitário com a participação de muita gente, inclusive on line durante nosso manifesto.



4 – Vocês têm como meta se instalar em todas as dioceses? Isso é possível hoje?

Do ponto de vista canônico não há nada que impeça uma pastoral local vir a se tornar diocesana. No nosso caso, o Episcopaz ainda é uma pastoral ligada a uma paróquia. Nascemos ontem, por assim dizer. A verdade é que temos uma agenda bem cheia --- e diga-se de passagem com grandes desafios --- pra que tenhamos este tipo de pretensão no momento. Se eu te falar de metas que carregamos, diria que hoje é mostrar mais nossa cara enquanto anglo-católicos inclusivos e o pra quê aqui viemos. 

Se eu sair por aí e perguntar, como costumo fazer, se já ouviu falar de inclusão católica, alguns vão pensar que falando de igrejas evangélicas e outros que me refiro à igreja de Roma. Com todo o respeito que tenho a ambas, nossa meta é nos fazer conhecidos pelas ações pastorais e de impacto civil em prol da diversidade, mas também nos fazer conhecidos como uma alternativa de respeito às diferenças, mas sem perder nossa catolicidade e nosso jeito humano de ser Igreja no mundo em transformação.

5 – Falando no impacto civil pela diversidade, qual é a importância ou a finalidade social desse movimento pró-diversidade?

Tornar a Mensagem de inclusão e paz em ações concretas diante de situações reais de marginalização, de desrespeito de direitos fundamentais, de manifesta segregação racial, homofobia, lesbofobia, transfobia, enfim, de todas as formas de violência e também de busca por justiça, igualdade de direitos e paz.


6 – O Episcopaz pretende ser o movimento anglicano pró diversidade, paz e inclusão para além das paredes das paróquias anglicanas brasileiras?

Não trago comigo essa preocupação e penso que os companheiros da pastoral também não. Há uns anos atrás, quando participava de um seminário sobre direitos humanos e meio ambiente, ouvi a então ministra do meio ambiente, Marina Silva, dizendo que há gente que aqui no Rio, inserido na grande oportunidade de mudar o mundo a partir daqui, mas fica idealizando as coisas preferindo defender a floresta amazônica quando nem sequer se preocupa com a poluição da Baía de Guanabara nem aí para o desmatamento da mata atlântica. Trazendo pra nosso contexto, o foco do Episcopaz neste momento é uma mudança a partir de nossa realidade brasileira. Considere comigo o universo de desafios que temos somente em nossos campos, vendo a morte do PLC 122, a aprovação pela CDHM do projeto de decreto legislativo 871/13, que tenta amordaçar o CNJ retirando o poder de regulamentar a questão dos casamentos civis igualitários, as manobras dos integrantes da comissão especial do Senado que é responsável por elaborar o novo projeto do Código Penal, que acatou a retirada das referências a “gênero”, “identidade de gênero” e “orientação sexual”, por pressão dos fundamentalistas, as associações eleitoreiras de muitas figuras públicas com conservadores desejando a manutenção de um “status quo” tanto nas Assembleias Legislativas quanto no Congresso, tudo isso é prova viva de um cenário pedregoso ante o qual nem podemos piscar os olhos. 


Então, neste momento, não podemos pensar para além dos nossos jardins. Aliás, acabei me lembrando de uma lição de Rubem Alves, autor daquela maravilhosa parábola “O Bom Travesti”, que é um tapa na cara de muito intolerante. Ele diz que educar é plantar jardins e tornar o mundo belo e manso. Pois, bem. Nossa pastoral tem a consciência de todos aqueles desafios que enumerei; daí, o compromisso de plantar jardins multifloridos, com todas as cores dos nossos sonhos, dos nossos direitos, de nossa identidade enquanto pessoa, protagonista de nossa história. E o nosso compromisso, ao lado do compromisso de muita gente de bem que nos lê, é fazer o mundo cada vez mais livre de ervas-daninhas da violência e de todas as formas de preconceito. Ainda há muito o que plantar em termos de luta por aqui...


7 – A Igreja Episcopal dos EUA desde a década de 90 já vive plenamente a inclusão. Ordenou o primeiro bispo assumidamente gay e já conta, salvo engano, com quatro bispos abertamente gays desde então, além de diversos membros do clero. As mulheres anglicanas americanas são ordenadas ao ministério episcopal exercendo a função de bispas. Como é aqui no Brasil? Nossa situação histórica, ou seja, nosso contexto contemplaria a ordenação de um sacerdote, sacerdotisa ou bispo/bispa abertamente, assumidamente homossexual?


Não podemos perder de vista que falar de anglicanismo é ter em mente a coragem de mudar, de escutar o chamado para testemunhar a presença de Cristo no mundo em transformação (social, política, cultural, etc). No Brasil já temos garantida a possibilidade de ordenação de mulheres ao episcopado. Numa comparação modesta, a Constituição brasileira nunca proibiu uma mulher de exercer a chefia da Nação, mas em tantos anos de República somente agora tivemos uma como presidenta. Em pleno século XXI ainda não tivemos uma mulher chefe do Legislativo federal, presidenta do Congresso Nacional. É ponto pacífico que mulheres competentes e preparadas há. O raciocínio é semelhante dentro da Comunhão Anglicana, em especial aqui no Brasil. Não vejo a hora de termos bispas, já que temos diversos membros do clero que são mulheres super preparadas. Falando dentro deste contexto, que é o de abraçar a diversidade sexual, racial, enfim, não importa, temos sim a possibilidade de ordenar um postulante às ordens clericais que seja de orientação sexual abertamente homoafetiva. O que vai contar, no final das contas, é a evidência da manifestação do chamado ao sacerdócio e o preparo para esse serviço dentro de nossa Igreja no Brasil.


8 – Falando da Igreja Anglicana no Brasil, quais as resistências que o Episcopaz enfrenta? Sabemos que o campo religioso é um campo de disputa, como observou o sociólogo Pierre Bourdieu. A que você atribui a resistência, se houver?

Resistência acaba sendo até importante no empoderamento das nossas ações, mas não aqui falando de resistência estrutural como Bourdieu defendeu nas suas teorias deterministas, como ainda se vê dentro de muitas religiões intolerantes. O negócio é que somos uma pastoral local, aqui do Rio. Então, posso te dizer que, tanto da parte de nosso clero quanto de nosso bispo diocesano, temos tido apoio e diversas manifestações de auxílio. Até o momento desta entrevista não há que se falar em resistência (risos). 

Mas, voltando a falar sério. Noutro dia mesmo falava que aquela imagem de Dom Filadelfo (bispo da Diocese Anglicana do Rio) oferecendo um cartão vermelho para toda forma de preconceito na grande marcha em prol dos direitos humanos em Copacabana (abril do ano passado), ao lado do Marcelo Freixo, do Jean Wyllys, do Chico Alencar, é visionária. Ela por si só é uma Mensagem com “m” maiúsculo de que o papel do cristão é o de temperar a existência com os exemplos de amor, solidariedade e respeito que encontramos no Cristo dos Publicanos e das Meretrizes de Nazaré. Visionária porque traz o que esperamos: que aqueles que não sabem coexistir em paz com a diversidade recebam da própria vida um cartão vermelho dentro de suas consciências.



9 – Falando agora de projetos, quais os projetos do Episcopaz para o ano de 2014?

Eu diria que 2013 foi um ano de organização e solidificação de nossa estrutura. Este ano desejamos continuar debatendo amplamente as questões de inclusão (sexual, racial, dos portadores de necessidades especiais, entre outras), mas também nos abrindo para parcerias com grupos de trabalho, movimentos sociais e de defesa de direitos ligados a minorias, outras pastorais... Temos a possibilidade de desenvolver parcerias com entidades de fora do país, de ampliarmos as redes de comunicação com aqueles que desejam apoiar nossas ações e de se unir ao nosso trabalho, de mostrarmos mais nossa cara para a sociedade (nas passeatas, nos protestos, nas paradas, etc).


10 – No último Sínodo da IEAB, foi proposta a análise por parte dos sinodais a respeito do casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo. Como ficou esta questão? Qual foi o trabalho do Episcopaz nisso, fizeram lobby? Você acha que vai levar muito tempo para que a IEAB aprove o casamento religioso entre iguais?

O trabalho que o Episcopaz realizou foi muito produtivo no último Sínodo. Houve mobilização antes, durante e depois em prol de atualizações nos documentos de nossa Igreja que contemplassem expressamente igualdade de direitos na questão do matrimônio para os anglicanos homoafetivos. A Igreja Católica (anglicana, romana e a oriental), enquanto instituição eclesiástica histórica, além da complexidade de suas estruturas carrega um peso na sua dimensão eclesial que não permite realizar mudanças num estalar de dedos. Não somos ingênuos. Os caminhos se dão através das consultas aos bispos, dos sínodos, dos concílios, enfim. Já uma igreja que tenha surgido há 10 ou 20 anos, obviamente, consegue mudar com grau de facilidade infinitamente maior. 

Agora, falar de Comunhão Anglicana é saber que estamos lidando com diversidade de opiniões mas sobretudo unidade em meio a isso tudo. Achei fantástico, por exemplo, a posição da Câmara dos bispos anglicanos aqui do Brasil se manifestando em carta em novembro do ano passado, dizendo que “entre os muitos desafios pastorais e canônicos chama-nos a atenção a questão da união de pessoas homoafetivas”. A mesma carta oficial se posiciona dentro de nosso ethos de inclusão, dizendo no final: “a Câmara dos Bispos já se manifestou duas vezes, por meio de cartas pastorais, nas quais se afirmou a legitimidade, seriedade e relevância pastoral do tema”. Perceba que nossos bispos estão sensíveis e antenados aos nossos movimentos. Isso é bárbaro. Diria mais, é promissor. Em suma, fomos muito bem recebidos no último Sínodo e diversos clérigos e bispos nos ofereceram total apoio. Neste momento, o tema do matrimônio igualitário está em exame com uma grande possibilidade de, mais uma vez, reafirmar nossa identidade como uma Igreja católica, de sucessão apostólica e com uma teologia muito à frente de seu tempo.


11 – Sabemos que dentro da IEAB temos paróquias resistentes à inclusão de LGBTs. O Movimento Episcopaz pretende sensibilizar este clero mais resistente e os eclesianos destas paróquias?

Não diria que temos paróquias resistentes à inclusão, até porque nosso ethos é de inclusão, faz parte dos votos batismais de todo anglicano. A questão é que há muita paróquia que não sabe (por várias razões) se articular e fomentar espaços onde se possa efetivamente trabalhar as questões ligadas à inclusão sexual (seja por meio de pastorais, seja por meio de catequese, etc). 

Isso é algo que nos incomoda, até mesmo pelo número de gente que nos procura de várias dioceses querendo implementar algo semelhante à nossa pastoral. Acontece que o trabalho é grande, os desafios gigantes e ainda temos um grupo relativamente pequeno para lançar as sementes, regar e cuidar daqueles jardins que me referi num outro momento... 

Em relação a quem possa resistir à inclusão da diversidade sexual, lamento dizendo o que Bethânia profetiza na cadência dos versos de Reconvexo:

“Eu sou Gitá gogoya, seu olho me olha, mas não me pode alcançar. Não tenho escolha, careta, vou descartar...”


 
12 – Quem, afinal, pode fazer parte do Episcopaz? Somente anglicanas e anglicanos ou todos e todas? Como fazer parte, como se engajar?


Todos. Todos que carregam os sonhos e as utopias de um mundo pacífico e irmanado. Todos que não têm medo do diferente e desejam plantar jardins, querendo um mundo belo e manso. Basta nos procurar pelas redes sociais, curtir nossa página, enviar um e-mail para episcopaz@trindademeier.org

 
13 - Como você vê a questão do crescimento das igrejas inclusivas e iniciativas como o Diversidade Católica e o Episcopaz?

Duas coisas muito importantes. A primeira é o surgimento das chamadas igrejas inclusivas na última década. Não tenho dados, mas sei que já se tornaram dezenas pelo país. Como uma moeda e seus dois lados, o ponto bastante positivo é o quê de subversão com que elas nascem. Isso tem tudo a ver com a Mensagem do Evangelho, que não apenas acolhe e respeita, mas denuncia as injustiças e mostra que não somos menos dignos. Outro lado dessa moeda tem a ver com a reprodução de alguns modelos das igrejas-origem, nem sempre subversivos na Mensagem. Graças a Deus, há exceções mas percebo que estas estão se tornando ilhadas em meio a uma onda de ‘homogeneização’ na praxis eclesiae. A segunda coisa que particularmente considero importante tem a ver com o surgimento de iniciativas fora do contexto das igrejas inclusivas evangélicas, como o Diversidade Católica e nossa pastoral Episcopaz. Um não é, como eles mesmos dizem, ente oficial ligado a nenhuma paróquia, o que até facilita a dinâmica sem fronteira de suas ações e a autonomia para administrar sua própria estrutura. São completamente subversivos no melhor ponto de vista. 


Já o Episcopaz é ligado a uma paróquia, que, por sua vez, está no contexto de uma diocese. Mas tem um diferencial: não está subordinado à Roma, ou seja, nem a Congregação para Doutrina e Fé pode nos silenciar. Daí, você me pergunta: os bispos da Igreja Anglicana poderiam silenciar vocês? Eu te responderia: como, se todos somos subversivos? [risos] Noutras palavras: como, se fazemos parte do anglicanismo que não teme se reformar para melhor acompanhar as transformações no mundo?


14 – Por último, mas não menos importante, gostaria que você analisasse o contexto político e religioso brasileiro. Se possível, deixe uma mensagem aos nossos leitores e leitoras.

Respondo sob um olhar extremamente pessoal, de um militante dos direitos humanos, cristão e intrinsecamente ligado às minorias. Ressalto a importância dessa leitura porque estamos diante de um cenário de fortalecimento das bases fundamentalistas numa sociedade rachada, como defende Jürgen Habermas, em aqueles que estão no poder (vencedores), os beneficiários e os marginais (perdedores). A forma como aqueles que antes eram marginais, depois se tornaram beneficiários e atualmente procuram a todo custo ser os vencedores (eu falo aqui dos fundamentalistas religiosos) me traz a sensação de que alguma coisa de muito preocupante está por vir. Na Assembleia Legislativa do Rio, por exemplo, tivemos uma deputada que propôs projeto de lei para a moral e os bons costumes. A mesma deputada afirmou que não contrataria uma babá lésbica sugerindo um “perigo” para o bem estar de seu filho. Isso foi dito em plenário sob consentimento de seus pares, que aprovaram o requerimento. Vejo a FPE no Congresso Nacional mobilizada e bem articulada muito mais para alcançar o poder e impedir direitos a cidadãos LGBTs do que por outras razões em benefício da sociedade. Os candidatos ao governo do estado estão fechando acordos com esses parlamentares de base fundamentalista em razão do coletivo de eleitores que representam. Por outro lado, em que pese o amadurecimento da consciência política exercida e da visibilidade nas paradas da diversidade, ainda se percebem “gaps” no mecanismo das articulações políticas, sem muita ou nenhuma estratégia de empoderamento dentro das Casas legislativas e com os chefes do Executivo.A outrora colcha de vários retalhos no tecido político está se tornando --- em grande parte às aglutinações das forças fundamentalistas com aqueles que estão no poder --- numa colcha de poucos retalhos, de poucas cores. Isso nos afronta enquanto sociedade porque a ideia de democracia pressupõe pluralidade. Isso nos afronta enquanto símbolos de resistência em prol da diversidade porque falamos de oportunidade comum e de bem-estar para todos, e não de alguns. Não sou alarmista, mas gosto de pensar com os pés plantados no húmus da realidade. Este ano precisa ser impactante para as forças que historicamente nos assaltam direitos. O impacto precisa vir como uma resposta de nossa consciência cidadã. 


Está na hora de uma demonstração clara do “rolezinho” dos cidadãos que sobrevivem às margens. O nosso encontro precisa ser real, e não virtual, nas urnas eleitorais de cada cidade deste país. Se Quintana um dia escreveu que o segredo não é correr atrás das borboletas, mais que na hora de cuidarmos do nosso jardim pra que, vencendo as articulações das ervas daninhas, nossos direitos cheguem sem interferência de fundamentalista algum, até nós. Até cada um de nós.
 

Ricardo Pinheiro, advogado com especialização em Direitos Humanos pela UFRJ,  presta consultoria na área dos direitos homoafetivos e em diversas ONGs, é militante dos direitos humanos e coordenador da pastoral anglicana Movimento Episcopaz no Rio de Janeiro.

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